Janeiro, 2006

Já passou um ano!

Este ano passou a correr, parece que o mês passado andávamos a vadiar pela Guiné e agora já nos preparamos para voar para a América do Sul. Contra todas as expectativas o projecto vai mesmo para a sua segunda etapa, depois de Lisboa Bissau no ano passado vamos agora para o Brasil cheios de vontade de degustar os 16000kms que nos esperam entre o Rio de Janeiro e a cidade mais austral do planeta, Ushuaia na Argentina.
Somos novamente quatro mas com algumas trocas de plantel, o Casimiro mudou de emprego e não têm férias suficientes, o Carlos Martins anda desvairado, o chefe enfiou-lhe um mega projecto na mão e não pode sair do país por tanto tempo, como vingança já se prepara para ir vadiar 3 semanas para a Mauritânia. Em vez deles vai o André Espenica e o Rui Gomes. O André é um alentejano puro, calmo e ponderado, já o Rui é o oposto, a sua energia transborda de tal forma que só de estar com ele já ficamos cansados. O Martins que o conhece bem deu-me algumas dicas, “não o deixes com fome….quando o gaijo ficar resmungão, pára num café e enfia-lhe uma salada na frente ou dá-lhe umas bolachas, é certinho, acalma logo…” tomei nota!
Como o André vive em Évora resolvemos marcar as reuniões de preparação mais ou menos a meio caminho e seguindo os métodos habituais, comemos vários petiscos e tomámos outros tantos canecos. Estas reuniões foram novamente muito proveitosas, descobrimos várias tascas boas.

Fevereiro, 2006

Inicio de viagem diferente

Depois de quase tudo pronto para enviar as motos num contentor para Buenos Aires tudo foi alterado nos últimos meses. Afinal vamos utilizar as motas de amigos no Brasil. O André Etienne, o Silvio Ventura, a Verbena e o Ralf são amigos que conheci no via net num fórum sobre BigTrails do Brasil. Contactaram-me via e-mail no sentido de ajudar na aquisição ou aluguer de motos para uma viajem que planeavam realizar na Europa no verão de 2006. Na ultima viagem ao Brasil conheci-os pessoalmente e falei deste projecto. Surgiu aí a ideia da permuta de motos, nós utilizamos as motos deles na próxima etapa Rio de Janeiro - Ushuaia e eles utilizarão as nossas motos quando vierem viajar para a Europa. Simples não é?
Não! As nossas motas já estão configuradas para estas viagens e já lhes conhecemos as manhas, as de lá são uma incógnita. As Suzuki DR850 nunca foram muito comuns em Portugal, as Cagiva Elephant 900 são mesmo raras entre nós, eu tenho sorte, vou numa BMW igualzinha à minha mas também não é por isso que tenho menos trabalho. É preciso inventar suportes de malas para as Dr, fazer tomadas de energia para os Gps, e transportar tudo isso para lá! Resolvemos jogar pelo seguro e enviar os pneus Continental TKC80 por correio, sai caro mas vale a pena pelas garantias de segurança e durabilidade que eles nos oferecem. O Amorim tratou de criar sistemas de energia para as quarto motas, o meu permite alimentar a câmera de filmar, carregar a maquina fotográfica e ainda alimenta o GPS, tudo ao mesmo tempo, um luxo!
Esta ultima semana tem sido estranha, vou à garagem todas as noites e fico meio baralhado olhando as bagagens já prontas, tiro, reponho, arrumo… normalmente estaria neste momento já com tudo montado na moto, mas desta vez a moto está a 10.000kms de distancia. É uma sensação difícil de digerir, por um lado está tudo pronto, certinho, organizado, por outro lado a noção que basta qualquer pequeno contratempo para comprometer tudo...uma mala extraviada é o suficiente.  Até agora tem tudo corrido muito bem, o Silvio recebeu os pneus Continental que eu enviei por correio, os suportes das malas de alumínio estão prontos e têm óptimo aspecto, o André e a Verbena já trataram de toda a documentação nos consulados dos países a visitar, o Espenica fez uma recolha de mapas incrível, as motas estão revistas... apesar de tudo aparentemente tão bem organizado o aperto no estômago continua.

O primeiro dia desta viagem teve 36 horas.... pelo menos para nós 4. Chegámos mais mortos que vivos a São Paulo depois de 11 horas de voo directo e 1 de ligação. No aeroporto de Madrid o jantar teve de ser inventado, todos os restaurantes à excepção de um estavam fechados e como é obvio esse um estava com uma fila em que em vez de jantar tomaríamos o pequeno almoço. Há que improvisar e umas bolachinhas de àgua e sal, uma palete de Jamon Serrano e um Toblerone da loja de souvenirs resolveram a questão. Já em São Paulo o André Etienne estava à nossa espera no aeroporto e rapidamente fomos para… uma churrascaria ora pois... que isto das motos pode esperar! Já com a companhia do Silvio e da Verbena passamos toda a tarde na garagem/oficina/concessionário/bar do André a preparar as motos, monta mala, tira mala, martela mala, aperta, desaperta e pelas 6 da tarde tínhamos tudo orientado. Hora de..... FESTA ora pois.... que isto do descanso pode esperar (onde é que já li isto...) O Desmogrupo (um grupo de masoquistas donos de Cagivas elephant) preparou uma desmofesta, no desmobuteco, com a desmobanda e desmochurrasquinho e tudo.... querem acabar com os portugas!!!! Uma recepção inesquecível, a generosidade dos amigos que encontrámos por cá e que nos receberam de braços abertos é impossível de explicar por palavras, sentimo-nos em casa, totalmente em casa... quem tem amigos destes vai até ao fim do mundo...

O Ralf deu abrigo na sua casa a toda a comitiva portuguesa, com direito a pequeno almoço tipicamente brasileiro e o André foi nos acompanhar à saída de São Paulo, que é como quem diz uns 40 kms.... que cidade gigante.... assustadoramente grande

 

Fevereiro, 2006

O Brasil

O dia foi de prólogo... ambientação a tudo, estrada, transito, camiões, calor, e claro as motos diferentes... Saímos tarde, e o primeiro trecho tem muitos camiões, a medo vamos devagarinho, com todas as precauções até ao almoço. Um “boteco” de camionista de beira de estrada com buffet “Coma o que puder por 6 reais” (+ ou - 2 euros) pareceu bem e soube ainda melhor. Seguimos por mais um deposito, 300 kms e nova paragem... desta vez a ambientação passa por uns pasteis de queijo, regados com caldo de cana e açaí, para sobremesa uma cocada! Seguimos por um vale muito bonito que desce a serra de Curitiba até à costa, depois saímos da estrada principal e rumámos já com o pôr do Sol a Jaraguá do Sul para ir ver a Milene. Ela, especial como sempre, adivinhou a nossa vinda e nos obrigou, literalmente, a ficar em sua casa. Um serão delicioso no restaurante de sua irmã teve depois continuidade numa gostosa conversa no relvado do seu jardim sobe um céu estrelado e uma temperatura tão agradável que acabei dormindo... no relvado mesmo.
Estivemos com a Milene até perto da hora de almoço, gostaríamos de ficar com ela mais uns dias mas Ushuaia fica longe e à que continuar. Fomos a uma oficina Suzuki de um amigo dela para uma afinação básica das motos e seguimos viagem, passámos por Pomerode conhecida como a cidade mais alemã do Brasil, com igrejas e casas tipicamente germânicas, não fosse vegetação tropical e o calor húmido e mais parecia que passeamos pelo vale do Reno. Almoçámos em Blumenau e seguimos novamente para a costa, primeiro por Florianopolis, Balneário Camboriu e depois por Porto Belo e Bombinhas. Aqui aconteceu o drama do dia, uma autentica catástrofe nos nossos planos traçados ao milímetro... segundo os quais deveríamos estar agora 1000kms mais a Sul. Encontrámos uma praia idílica em que é possível montar as tendas literalmente a 3 metros de uma agua com 28º.... foi impossível continuar a viagem, tínhamos de dormir aqui!
Saímos de Bombinhas logo cedo na direcção de Porto Alegre, 300 kms depois saímos da interminável BR 101, que liga todo o Brasil de Norte a Sul pela costa. Em plena fronteira entre os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul encontrámos a entrada para a primeira travessia todo-o-terreno prevista no roteiro. Optámos por este roteiro para conhecer de perto a famosa serra gaúcha e fugir da monotonia da via rápida. Atravessámos demoradamente o Parque Natural dos Canyons e o Parque Natural do Intambezinho e terminámos o dia em beleza alojados no camping da família Melo junto ao Parque Natural do Caracol em Canela. O dia seguinte estava previsto para percorrer todos os recantos desta região mas a TPM da Alzira (que é como quem diz o motor de arranque da Cagiva) resolveu não colaborar e ocupou praticamente todo o nosso dia. Só parámos o tratamento da Alzira quando as ferramentas disponíveis não eram suficientes para a reparação. Mesmo assim deu para conhecer Canela, Gramado e ficar maravilhados com a Cascata do Caracol. A região Gaúcha é fértil em motivos de interesse mas  os seus restaurantes merecem um destaque especial, durante um rodízio típico o Rui abandonou oficialmente a sua dieta vegetariana e entregou-se à tentadora variedade de carnes no churrasco. Para a ajudar à digestão decidimos visitar uma inauguração de um bar bem ao lado do restaurante, aqui a variedade é também muito exuberante mas noutro sentido. Ontem, depois de um típico café colonial (uma variedade incrível de petiscos regionais) descemos a Serra e encontrámos em Nova Hamburgo a oficina do Reni que o Sr. Melo nos havia recomendado. O Reni e a sua equipa são super eficientes, acolheram-nos e repararam o motor de arranque o mais rápido que conseguiram. O André, a Verbena, o Rolf e o Raul vieram ao nosso encontro juntos rumámos a Pelotas. Ficamos numa pequena cidade a poucos quilómetros do objectivo do dia mas no caminho certo e com os problemas resolvidos!

Fevereiro, 2006

Uruguai, o Mar de Prata e Buenos Aires.

Hoje atravessamos todo o Uruguai junto à costa, e subimos o Rio Prata até Colónia do Sacramento, nada mau, uns 890 kms por prados intermináveis num país muito belo com estradas de fazer inveja a muitos países que gostam de dizer que são do primeiro mundo. Montevideu é uma cidade muito bonita, limpa e colorida mas o melhor deste pais são as paisagens rurais, em que os prados verdes salpicados de vacas e cavalos parecem parados no tempo fazendo lembrar aquelas comunidades católicas ultra conservadoras do interior dos Estados Unidos. No interior do país a locomoção animal é ainda bastante utilizada e a quantidade de fazendas de gado devem fornecer muita da carne que nos chega aos supermercados de Lisboa como sendo da Argentina. O Parque automóvel é também uma curiosidade, Buicks e Chevys dos anos 60 dão um colorido muito pitoresco às poucas estações de serviço. Agora estamos em Colónia del Sacramento, uma cidade fundada por portugueses no sec. XVII e orgulhosamente preservada pelos Uruguaios. A cidade tem um forte português e algumas ruas que ainda preservam as placas em azulejo tão lusitanas. É um ponto turístico muito concorrido, tanto pelo centro histórico como pela sua posição estratégica bem em frente à cosmopolita Buenos Aires do outro lado do Mar da Prata. Amanha apanhamos o ferry que liga estas duas cidade, é a travessia mais curta possível desta enorme massa de agua que Fernão de Magalhães pensou ter ligação para o Pacifico.
O dia reservado para Buenos Aires acabou por ser passado na companhia do Javier e da Sandra, o casal "portenho" que gere a DakarMotos (www.dakarmotos.com), um poiso obrigatório para quem viaja por estas bandas em duas rodas. Já tínhamos planeado a passagem pela sua casa/oficina/albergaria/camping mas a vontade transformou-se em necessidade depois da embraiagem da GS ter anunciado a sua morte ainda no sul do Brasil. Como conhecia  o Javier desde os preparativos iniciais para o transporte das motos para Buenos Aires, achei que ele estaria mais apto a cuidar da minha embraiagem cansada do que as oficinas do Brasil. Para além disso ele conseguiu um disco de embraiagem por 250 USD, bem mais em conta que os 1500USD que me tinham pedido na BMW de Porto Alegre.
Acabei por não comprar a embraiagem porque o Ralf trazia uma de substituição e enquanto ele e toda a restante comitiva foram conhecer a cidade eu o Javier e o Teles passamos a tarde inteira a desmontar meia mota para substituir o disco. Ao contrario do que possam pensar foi uma óptima tarde, o Javier e a Sandra são magníficos, hospitaleiros, prestativos e não escondiam a grande satisfação de estar a receber os primeiros portugueses. A Dakarmotos é uma oficina modesta mas muito aconchegante, tem ferramentas básicas mas muito boa vontade e espírito Inshalá, tem ainda uma pequena camarata e um jardim onde é possível acampar. A hospitalidade e simpatia da Sandra e do Javier são famosos entre os motociclistas viajantes, ficar na DakarMotos é garantida de conhecer pessoas interessantes, a Katja e o Martin por exemplo estão acampados no jardim e percorrem a América do Sul à 21 meses nas suas Africa Twin, no beliche do lado está o  Simon que à 3  semanas faz calmamente uma revisão completa à sua MZ depois de 7 meses na Patagónia…

Fevereiro, 2006

A Patagónia

No dia seguinte seguimos até Bahia Blanca e ontem chegamos ao santuário de vida selvagem chamado Península Valdez. Montámos base em Puerto Pirâmides, uma pacata vila de pescadores que se tornou numa pacata vila de turismo ecológico e hoje reservamos o dia para contornar esta península classificada como Património Natural da Humanidade. Realmente a quantidade de vida selvagem é impressionante, vimos guanacos, pinguins, focas, elefantes marinhos, lobos marinhos e uma infinidade de passarocos, mas as orcas não se mostraram...é aqui nestas praias geladas que são filmados aqueles documentários onde as baleias assassinas  vêm à praia caçar filhotes de foca.  Fizemos no total uns 350kms de ripio, umas pistas largas de gravilha onde se roda numa media de 100/110 quilómetros hora.... com alguns sustos pelo meio. Saímos de Puerto Pirâmides e iniciamos a travessia da Patagónia, a nossa rota prevista implicava um desvio para Oeste na direcção da Cordilheira Andina mas optámos por continuar a seguir para Sul junto ao Atlântico. As distancias aqui são impressionantes e assim jogamos pelo seguro e poupamos algum tempo para desfrutar com mais calma as belezas do Sul.  Dormimos a 15 kms de Tecka numa aldeia que mais parece do velho oeste, pickups e carros americanos dos anos 60 continuam a rolar sem problemas, a população é maioritariamente indígena (pré colonial) e realmente tem um aspecto muito semelhante aos esquimós/mongóis. Ao contrário dos portugueses no Brasil, os espanhóis não se misturaram com os nativos e isso é bem visível na fisionomia dos locais.
É difícil escrever sobre a Patagónia, não há como a reproduzir em fotos, a descrever em palavras, há que ir lá para a sentir. Um imenso horizonte, milhares de quilómetros de planícies, um céu inacreditável, um vento gelado constante e um pôr do sol que dura 2 horas. Durante um desses espectáculos de fim de tarde chegamos à nossa próxima paragem, Puerto San Julian.
Esta pequena cidade está localizada numa agradável baía e tem a particularidade de ter sido escolhida por nomes como Magalhães e Drake para restabelecer forças antes de rumar ainda mais a Sul. Devo confessar que este é um local que tinha muita vontade de conhecer, sempre fui um apaixonado pelas aventuras dos marinheiros portugueses e numa das ultimas visitas ao Museu da Marinha descobri um livro que relata a primeira viagem à volta do Mundo de Fernão de Magalhães. Este livro compila vários diários de marinheiros que acompanharam Magalhães na sua odisseia mas as descrições minuciosas de Pigaffeta, um marinheiro genovês, são incrivelmente precisas mesmo actualmente. É certo que as galinhas difíceis de depenar e com sabor a peixe se chamam actualmente pinguins e que as burras de pescoço longo que dão leite, carne e pele boa são conhecidos também como guanacos, mas isso são pequenos pormenores.
Numa placa junto da baía pode-se ler: “Aqui nasceu a Patagónia”, foi aqui que o navegador português viu pela primeira vez os nativos locais, eram muito altos vestiam-se com peles de animais que também utilizavam para fazer uma espécie de botas, a tripulação chamou estes gigantes de pés grandes de patagãos e daí o nome Patagónia. As tripulações de Magalhães e de Drake passaram 6 meses nesta baía a recolher viveres e a esperar pelo
fim do Inverno antes de rumar mais a Sul. Nós temos menos tempo, apenas um dia que gastámos da melhor forma possível; um passeio de barco a uma pinguinera numa ilha perto, um regresso pela baía acompanhados de perto por golfinhos brincalhões e uma visita à replica da nau de Magalhães “Vitoria” ajudaram a restabelecer força para enfrentar mais umas centenas de quilómetros pela Patagónia Argentina. Ainda antes de sair o Teles perguntou ao Magalhaes em pessoa qual o melhor caminho para o Fim do Mundo. A sul desta agradável baía a paisagem é forrada por inúmeros poços de petróleo, esta região é muito rica neste produto e graças a isso à quase 3000 quilómetros que andamos a atestar os depósitos das motos com gasolina a 40 cêntimos o litro. É certo que nos primeiros quilómetros não deixa de ser uma visão diferente e até pitoresca ver as bombas coloridas que puxam o petróleo das profundezas, mas depois de algumas horas a coisa fica um bocadinho monótona. 

MarÇo, 2006

No Fim do Mundo

Antes de chegar a mais um dos marcos desta viagem, o Estreito de Magalhães,  é necessário sair da Argentina e entrar no Chile. A fronteira é fácil de passar, a única coisa a ter em atenção é ultrapassar todos os autocarros de turismo antes da fronteira senão em vez de 20 minutos gastamos 2 horas. Ainda pensámos em dormir em Rio Gallegos a ultima cidade Argentina antes do estreito, mas a cidade é feia e ainda tínhamos algumas horas de dia para rodar.
A travessia do estreito foi uma experiência radical, é certo que o local tem já uma mística especial, mas o mar encrespado e o vento forte deram ainda mais mística ao momento. Estou eu na proa do ferry a imaginar aqueles marinheiro loucos lutando com as velas das suas frágeis cascas de noz por estes mares revoltos quando uma onda gelada me acorda bem a tempo de ir a correr para segurar a GS antes que ela se deite no chão de tão enjoada. 
A “Tierra del Fuego” também foi baptizada pelos marinheiros de Magalhães. Segundo as descrições de Pigaffeta enquanto navegavam no estreito observaram muitas fogueiras nas margens, os capitães para acalmarem as supersticiosas tripulações diziam que eram os simpáticos patagãos que lhes indicavam o caminho mais seguro. Na realidade os “fueguinos”, como mais tarde vieram a ser conhecidos os nativos desta ilha, não dominavam a criação do fogo e por isso mantinham sempre as suas fogueiras acesas. Talvez por isso ou talvez não o facto é que não se vislumbra nenhuma arvore na região, apenas pequenas casas construídas em chapa ondulada pintadas com cores vivas quebram a mancha verde da erva rasteira que balança com o vento forte vindo do Atlântico.
Dormimos numa "Estancia" típica desta região construída por uma família inglesa que colonizou estas terra no sec. XVIII para explorar a criação de ovelhas. O Teles quebrou a corrente a 15 kms da “Estancia” e só perto da meia noite conseguimos resgatá-lo, já tinha a sua tenda meio montada e preparava-se para dormir. Os quartos aqui são caros, 25 dólares por cabeça, mas a lareira a estalar e a beleza da “Estancia” minuciosamente preservada com mobília original dão um charme que merece a despesa extra. Conhecemos 2 brasileiros que regressam de Ushuaia com as suas BMW 1200GS, falam que a pista principal está muito esburacada e os camiões e autocarros são muitos e perigosos, as marcas das pedradas nas GS comprovam isso mesmo.
Pouco depois da “Estancia” o asfalto termina, parece que as temperaturas extremas não são muito amigas do asfalto e 90% das estradas da Tierra Del Fuego são em terra batida. Optámos por seguir por uma pequena pista que atravessa esta ilha pelo interior em vez de ir pela estrada principal, assim evitamos o vento forte, as pedradas dos camiões e conhecemos zonas supostamente mais preservadas. Acertámos com a escolha, foram mais de 200 quilómetros por vales verdejantes onde apenas alguns guanacos nos fizeram companhia. Na terra de ninguém entre o Chile e a fronteira com a Argentina reparei que os campos são minados mas ao contrário da Mauritânia são muito bem sinalizados. Parece que estes vizinhos têm ainda algumas questões por resolver neste fim de mundo, o Chilenos para chegarem às suas cidades mais austrais tem de atravessar a Patagónia Argentina, por seu lado os Argentinos da Tierra del fuego tem de atravessar o Chile para chegar aos seus domínios mais a Sul.

Eram perto das 10 da noite quando chegamos a Ushuaia. Estes dois dias foram muito intensos, preenchidos com momentos fortes. A travessia do Estreito de Magalhães, a entrada na Tierra del Fuego e a chegada a Ushuaia foram emoções a mais em tão pouco tempo. Via SMS partilhámos o momento com os amigos que ficaram em Lisboa e procurámos um hotel. Terminámos o dia comemorando a chegada ao objectivo da viagem com uma deliciosa “santoja” (uma espécie de Santola gigante conhecida no Alasca como King Crab) e muito “Pisco”. Hoje reservamos o dia para visitar Ushuaia e o Parque Nacional da Tierra del Fuego.

Tudo aqui é avassalador, começa pela chegada a cidade, depois de dias e dias de planícies surge na nossa frente uma cordilheira com picos neva dos. Os forros gore-tex, polares e afins estão todos vestidos, a temperatura caiu bruscamente no ultimo dia. Uma estrada com curvas fantásticas (finalmente curvas...) desemboca no canal de Beagle e na cidade mais austral do planeta. O Parque não tem descrição possível, não existem adjectivos para tamanha grandiosidade, natureza pura! Lagos multicoloridos, picos neva dos, castores, veados, falcões, florestas jurássicos…. o fim do mundo é lindo!

MarÇo, 2006

A Cordilheira dos Andes

Depois de um dia e meio desfrutando a cidade mais austral do planeta voltamos ao caminho. Fizemos uns 450kms por pistas de ripio sempre com o Estreito de Magalhães à vista a uns deliciosos 120 quilómetros hora, a pista é maravilhosa e a cada curva oferece-nos uma nova paisagem deslumbrante. Chegamos a Provenir com o pôr do sol, e que pôr do sol!!! O céu forrado de cores quentes espelhava nas aguas do estreito, a separar estes dois elementos a linha do horizonte recortada por picos glaciares tornava este momento perfeito! Provenir é uma pequena aldeia de pescadores que tem um ferry diário para Punta Arenas no Chile. O problema é que o horário não e de fiar e só quando chegámos à aldeia conseguimos confirmar que a partida seria apenas às 7 da noite do dia seguinte. Optamos por seguir viagem por mais 200km de ripio e mais pistas maravilhosas sempre na companhia do “nosso” estreito, acabando por contornar toda Tierra do Fogo Chilena. Atravessamos na Bahia Azul e comprei mais uns presentes para os amigos, que é como quem diz, juntei algumas pedras do Estreito de Magalhães as que já tinha recolhido numa praia do fim do mundo. O objectivo agora era chegar rapidamente a El Calafate  e começar a explorar a Cordilheira do Andes, mas como Rio Gallegos é a maior cidade da região achámos que uma noite aqui para reparar alguns pequenos problemas nas motos seria boa ideia. Melhor ideia foi mesmo a escolha do restaurante, já somos fãs do “Bife Chorisso” (uma espécie de posta mirandesa mas com o dobro do tamanho) mas desde que descobrimos o Pisco Chileno todas as noites terminam em festa, afinal precisamos ganhar energia para subir os Andes.
A visão que se tem da chegada a cordilheira é sem duvida uma experiência marcante que nos vai acompanhar o resto da vida! Depois de dias e dias de pampa e planície infinita (apenas quebrada pelos picos de Ushuaia) chegamos à cordilheira. Como chegamos cedo a El Calafate, optamos por ir directo para o Parque Nacional dos Glaciares e ver o famoso Perito Moreno.
O Glaciar Perito Moreno é o único no planeta que continua a crescer apesar do aquecimento global. Um rio de gelo milenar nasce nos campos de gelo no topo dos Andes e desce dois metros por dia na direcção do lago Argentino. Com uma altura de mais 170 metros e uma largura de 5 quilómetros ele afunda no lago e estala constantemente, desprendendo grandes Icebergues em explosões espectaculares. não é mas devia ser uma das 7 maravilhas do mundo. Gigantesco e belo é outras das visões inesquecíveis que vamos levar deste lugar.
Caminhamos demoradamente pela encosta oposta ao Glaciar e terminamos a tarde num café perto do lago a degustar a cachaça oferecida pela Milene com gelo milenar... só faltou o limão e açucar para a caipirinha. O ripio pelas margens do lago trouxeram-nos de volta a El Calafate, onde terminamos o dia com uma tábua de queijos e um bom vinho.
O próximo destino chama-se El Chaltén, uma pequena aldeia na base da montanha com o mesmo nome. Para lá chegar percorremos 400kms de ripio pela Ruta 40. Famosa pela sua extensão e isolamento, são mais de 4000 quilómetros de pista em cascalho grosso sempre com a amplitude da patagónia de um lado e a cordilheira dos Andes do outro. Os Glaciares alimentam os lagos que por sua vez escoam por rios poderosos de um azul inacreditável. Esta cor é provocada pela agua glaciar do grande campo de gelo da Patagónia no topo da cordilheira dos Andes, a 3ª maior reserva de agua doce do planeta. Durante muitos quilómetros a Ruta 40 acompanha um destes rios que desce da cordilheira na direcção da planície infinita da Patagónia Argentina.
Cerro Chaltén significa na língua indígena  Tehuelche “montanha que fuma” devido ao facto de frequentemente o topo desta montanha estar coberta por nuvens. Era uma montanha adorada e considerada sagrada. Mais tarde foi baptizada pelos colonizadores europeus como Fitz Roy em homenagem  ao capitão do navio Beagle. Simplificando a coisa é um calhau de granito com 3800 metros de altitude em forma de agulha com neve no topo, rodeado por outros calhaus com a mesma forma.... isto tudo espalhado por alguns milhares de km quadrados com mais um rio azul turquesa a correr pelo vale anexo e com umas florestas jurássicas para colorir ainda mais a coisa... básico!!
Não satisfeitos com esta visão ainda percorremos mais uns 120kms até ao Lago Del Desierto acompanhando o tal rio turquesa até à sua nascente. Dormimos acampados mesmo na base do Fitz Roy e no dia seguinte regressamos demoradamente a El Calafate. Recebemos a noticia de que o Barco de P. Natales foi alterado para o dia seguinte, com isso ganhamos um dia aqui mas perdemos um no Chile, vamos ter de compensar isso mas para já estamos com tempo e dentro do previsto. É bom ter tempo!!! As etapas agora são pequenas e de ripio, para alem disso as paisagens cada dia são mais arrebatadoras por isso e um prazer degustar estas paragens com tempo. Montámos as tendas nas margens do lago Roca a 30 kms da cidade e no meio de uma floresta. O dia seguinte é de descanso, vou passar por um cybercafé, lavar a roupa e vadiar pelas redondezas. Os Andrés, a Verbena o Raul e o Rolf vão passear de barco e ver os glaciares, eu acabei por encontrar o Teles numa pista que subia uma montanha adjacente ao Lago. Resolvemos explorar e subimos, subimos continuámos a subir até perceber que o caminho era afinal uma pista de ski em construção onde um restaurante parecia estar ali só à nossa espera. Uma galinha caseira acabadinha de sair do forno, um excelente vinho Argentino, uma lareira a estalar e 180 graus de panorâmica para o Lago Argentino foram mais que suficientes para dar por terminado o dia.

MarÇo, 2006

O Chile

Ai..... é a palavra mais escutada hoje, ontem uma caminhada de 8 horas no coração do Parque Nacional Torres del Paine deixou todos muito doloridos. Passamos lá duas noites depois de termos decidido ficar em Puerto Natales na primeira noite que chegamos deste lado da Cordilheira, já no Chile. O Parque é fantástico e a cada curva, a cada morro tem uma nova paisagem para fotografar, lagos verde jade, montanhas de pedra nua, cumes neva dos, cascatas poderosas, glaciares perdidos, enfim… foram 300 fotografias em 160 kms de ripio feito nas calmas! Dormimos no acampamento Las Torres, o mais próximo das enormes formações rochosas que dão nome ao Parque, mesmo assim foi necessária a tal caminhada de 8 horas sempre a subir para chegar à base dos calhaus, foi duro mas é mais um daqueles momentos que vamos recordar para sempre, valeu muito a pena. A manha acordou fresquinha, nuvens altas, ripio molhado, Torres del Paine ao fundo, 110kms hora... temos 1 hora para comer algo antes de embarcar as motos no navio da Navimag rumo a Norte, rumo a Puerto Mount!!
Dizem que esta é a segunda viagem de barco mais bela do mundo, parece que a primeira é na Nova Zelândia, um destes dias temos de verificar. Não tivemos muita sorte com o tempo mas acabámos por ter sorte noutras coisas, eu e o Teles partilhámos a cabine com duas backpakers, uma francesa e uma canadiana que traziam uma mochila cheia de vinho chileno. Eu no segundo dia recebi a alcunha de “laundry man”, descobri uma maquina de lavar numa salinha ao lado da cabine e aproveitei os dias da navegação para lavar toda a roupa da viagem. A rota do navio cruza fiordes selvagens, locais intocados onde a civilização ainda não chegou, passamos por Glaciares, por passagens estreitas onde o navio quase roça as margens, somos acompanhados por focas e golfinhos mas o tempo continua fechado. O Teles viu uma baleia e montou guarda para ver se vê mais, o Rui já conhece metade das backpackers, o resto da comitiva entregou-se ao Pisco chileno e passa a vida a festejar, eu entre uma maquina de roupa e outra aproveito para ler mais um pouco sobre o Atacama enquanto ajudo a Michelle a aliviar excesso de peso na sua mochila/garrafeira. O ambiente no navio é muito engraçado, há de tudo, famílias de férias, camionistas, locais, motociclistas mas a grande maioria são backpackers de todas as origens imaginárias. A Piu é uma israelita muito simpática que viaja sozinha pela América Latina, passámos várias horas à conversa, trocámos dicas e combinámos um reencontro nas cataratas do Iguaçu onde a nossa rota se deve voltar a cruzar mais ou menos na mesma altura.
Finalmente atracámos em Puerto Mount, tenho que confessar que já estávamos todos com saudades das motos, especialmente depois da ultima noite quando o navio teve de sair das aguas calmas dos fiordes e entrar em mar aberto. Nestas latitudes o Pacifico não é assim tão pacifico, na ultima noite mais de metade dos passageiros chamou um tal de Gregório.
Saímos do navio directamente para a estrada Pan-americana com uma chuvinha chata. Poucos quilómetros depois essa chuvinha chata transformou-se em temporal e chegou a altura de inaugurar os impermeáveis que como é normal nestas circunstancias estão sempre no fundo das malas. Exactamente a 35 quilómetros de Puerto Mount o sensor hall da minha GS não gostou da chuva forte e calou o motor... já no ano passado tinha tido este problema na pista da praia na Mauritânia e por pouco não entrei em pânico, desta vez já sei do que se trata. Monto a tenda, saco das bolachas e do chá e preparo-me para esperar que o sensor seque. Os companheiros de viagem foram regressando à minha procura, o Teles foi o primeiro a chegar e ajudou-me a levar a moto para uma paragem de autocarro onde desmontei a tampa do motor para arejar o sensor. O Ralf para surpresa geral traz um sensor hall novo de reserva, 30 minutos depois estamos de novo a rodar rumo a Ozorno. Esta é a ultima noite do grupo todo, a comitiva brasileira regressa daqui directo para São Paulo, nós os Portugas seguimos até ao deserto do Atacama e só depois regressamos ao Brasil.
O Rolf, a Verbena, o Andre e o Raul vão fazer falta, com eles a animação é garantida e viajar é ainda mais um experiência magnifica! Depois das despedidas devorámos 900kms de Pan-americana até perto de Santiago. Depois de varias tentativas sem sucesso de contactar o Mário, um amigo Chileno, optamos por atravessar pela costa evitando a confusão de Santiago. Acampamos nas margens de um lago entre Vina del Mar e ValParaíso. Esta é a região de veraneio de eleição dos Chilenos, uma espécie de Cote d’azur do Pacifico. A cidade de ValParaíso é bonita e organizada e contrasta as avenidas largas bordejadas de palmeiras com as enormes favelas que cobrem todos os morros circundantes. Parámos para um refresco numa das praias do centro e reparei nos sinais de transito que indicam corredores de fuga em caso de Tsunami, estamos numa das margens do instável anel de fogo do Pacifico e os sismos violentos são esperados a qualquer momento.
Visitámos demoradamente a casa de Pablo Neruda numa aldeia perto de ValParaiso e voltamos à estrada pelas 3 da tarde, o objectivo era subir o mais possível até anoitecer. Até às 7 da tarde não correu mal, mais 450 kms "comidos" mas depois veio mais uma avaria na Cagiva.
Alzira é o nome da Cagiva Elephant 900 do nosso amigo Túlio. No sorteio da distribuição das motos ela calhou ao Rui que rapidamente se apaixonou pelas curvas e cores da bonita Alzira. O problema é que como toda a mulher bonita a Alzira é muito manienta e adora chamar a atenção. Durante toda a viagem ela praticamente dia sim dia não pedia um carinho. Começou pelo botão de ignição colado, depois o motor de arranque gripou, mais tarde a embraiagem deixou de funcionar, ficou sem luzes algumas vezes, estoirou alguns retentores, os manómetros já deixaram de funcionar à algum tempo  e agora no auge da sua TPM (tensão pré menstrual) ela resolveu cuspir a corrente no meio da estrada Pan-americana. Estamos no meio do nada, faltam 90 kms para a cidade mais próxima e nenhum dos elos de ligação que trazemos servem naquela corrente, nem mesmo um original Cagiva que o Rui trouxe de Portugal! Reboque  (ler GS) a funcionar até um restaurante a pouco mais de 8 kms. Quando nos preparávamos para acampar atrás de umas casas eis que surge esbelto um camião com uma pick-up em cima, os nosso olhos cintilaram com tamanha solução. Pensado, dito e feito, meia hora e 20.000 pesos depois (40USD) estamos todos a caminho de La Serena! O Rui vai com o camionista e a Alzira vai à conversa com a pickup.
La Serena é uma cidade muito agradável, limpa e com algumas construções históricas, passámos a manhã numa oficina tentado adaptar um corrente Honda na Cagiva. Resultou e depois de umas “empanadas” para acalmar o estômago continuámos viagem para Norte.

MarÇo, 2006

O Deserto do Atacama

Pouco depois de La Serena a paisagem muda gradualmente e começamos a subir em altitude. As vinhas e pomares tão abundantes no sul dão lugar a zonas cada vez mais áridas e ventosas. Em apenas algumas centenas de quilómetros entrámos no coração do Atacama, a vegetação desapareceu completamente e a paisagem agora é de montanhas nuas com inúmeros tons de castanho e vermelho.Voltámos a descer ao nível do mar e subimos pela costa até Chañaral, uma cidade mineira com aspecto deserto. Segundo apurámos no restaurante onde jantámos toda a cidade foi evacuada pelo governo devido à contaminação do ar e das aguas por arsénico usado nas minas de cobre, restam poucos habitantes que se recusaram a abandonar a cidade. Nós que já nos preparávamos para um peixinho frito depressa perdemos o apetite e resolvemos alterar o pedido para uns “bife chorisso” de vacas da Patagónia. Ficámos todos no mesmo quarto na única hosteria aberta que também funciona como sala de jogos e cybercafé, a casa de banho fica no andar de cima e é única para toda a hosteria, o salão de jogos de noite é transformado em garagem. Na saída da cidade começa o Parque Nacional do Pão de Açúcar, o interesse deste parque era duvidoso, mas tínhamos a informação que atravessando o parque pouparíamos quase uma centena de quilómetros em relação a continuar na estrada Pan-americana. A decisão foi rápida, já estamos fartos de asfalto e sempre conhecemos mais um Parque Natural. Acabámos por ter sorte porque mesmo com o arsénico, a fauna e as paisagens do parque são muito interessantes, o nome Pão de Açúcar vem de uma ilha numa das baías do parque que tem a forma desse tipo de pão. Já de volta à Pan-americana hesitamos em meter-nos em mais 350km de ripio para ir a um observatório celestial que tem o maior espelho do mundo (14m de diâmetro), o guia falava que apenas eram permitidas visitas em dois dias da semana e por azar nenhum deles coincidia com o dia em que estávamos, para grande magoa do Rui perdemos o observatório. O problema da gasolina também não facilita. as bombas são às vezes a 200km umas das outras e não dá para inventar à ultima hora. Já anteontem tivemos que fazer uma trasfega para conseguir que o Teles chegasse à bomba.
As variações térmicas aqui são brutais e assim que o sol começa a desaparecer a maresia e o vento gelado são implacáveis. Por vezes dá preguiça de parar só para vestir o forro, cerramos os dentes, encolhemos o pescoço, fechamos o casaco e esperamos que apareça um local bonito para tirar uma fotografia, esvaziar a bexiga, fumar um cigarro e vestir finalmente o forro. Eu segui este ritual nos últimos dois dias e como resultado tenho agora uma pequena gripe.
Passamos ao lado de Antofagasta, é de longe o sitio mais feio que vimos até agora, a cidade está coberta por uma nuvem de pó permanente, o cheiro a químicos é muito forte e as margens das estradas estão forradas de detritos das minas. O único ponto interessante da região é a Mano del Desierto poucos quilómetros antes de Antofagasta, uma escultura gigante de uma mão que imerge da planície desértica. Finalmente viramos para Leste e poucos quilómetros depois cruzamos o trópico de Capricórnio, registámos o momento histórico e contribuímos para o monte de pedras que marca este ponto. Já no ano passado fizemos este ritual no trópico de câncer no Sahara  e esperamos no ano que vem fazer o mesmo quando cruzarmos o equador. Seguimos directos a Calama, cidade onde queríamos ir ver a maior mina a céu aberto do mundo, mas parece que para isso teremos que ir de excursão em autocarro uma manhã inteira e isso já é turismo a mais para nós. Queremos fazer o roteiro do deserto do Atacama sem repetir pistas por isso escolhemos ir directo de Calama para o campo de Géisers perto da fronteira com a Bolívia, li no guia que por este caminho há varias aldeias muito interessantes que permanecem inalteradas desde que este território pertencia à Bolívia.
Entretanto faltavam 40 minutos para o sol desaparecer e metermo-nos num caminho de alta montanha (o Géiser está a 4300m de altitude), sem saber o estado da estrada, nem a distancia certa, de noite, não parece boa ideia. Mas, acabamos por comprar comida e metermo-nos a caminho. Conseguimos chegar, noite já avançada, à pequena povoação de Caspañas a 41 ou 65 km do Géiser, segundo as varias informações disponíveis. Arranjamos dormida numa pequena casa construída de barro e madeira de cacto, fazemos um piquenique com o que levávamos e cama. A minha gripe piorou consideravelmente, a cabeça parece que quer explodir, não tenho apetite e não consigo adormecer, subir do nível do mar até aos 3300 metros de altitude em poucas horas também não deve ter ajudado. Às 5h da manha levantamo-nos a muito custo para ir para o campo de Géisers El Tatio. Era noite escura, não sabíamos como se portariam as motas em altitude, a do Teles e a Alzira não parecem lá muito bem, mas lá vamos. Começamos a subir dos 3300 metros a que fica a tal aldeia e tudo corre bem. Ainda de noite temos que fazer um corta-mato, devemos ter descoberto o pior caminho possível para o El Tatio, não existem indicações, a pista desapareceu, está um frio cortante e apenas temos um waypoint aproximado da localização dos Géisers.Finalmente chegamos e somos os primeiros. Aliás, se algum vez fizerem isto não acreditem na conversa dos guias que dizem que tem que lá estar ao alvorecer do dia. Eram quase 10 da manhã, já o sol ia alto e o espectáculo dos Géiser continuava praticamente igual. Dali vamos para São Pedro de Atacama, são mais de 200 quilómetros por uma descida com paisagens deslumbrantes. Mesmo com a persistente dor de cabeça não posso deixar de reconhecer que o Atacama me surpreendeu, depois de conhecer algumas paisagens do Sahara pensei que o Atacama fosse um deserto mais “modesto”. As paisagens são absolutamente deslumbrantes. As cores da terra e das rochas, as formas do relevo as cambiantes que a luz cria, são um espectáculo lindíssimo. Na descida do Géiser para S. Pedro de Atacama demoramos umas 4 horas por causa das paragens para tirar fotografias aos picos da cordilheira, às rochas, aos desfiladeiros, aos montes, às alpacas, aos oásis… A região é característica pelos seus vulcões e géisers e as águas ricas em minerais dão um colorido magnifico aos poucos rios da região. De madrugada, lá em cima, o frio era terrível, à medida que descemos, o calor começa a apertar e temos que nos ir despindo até chegar a S. Pedro onde devem estar uns 40 graus. Mas ao menos podemos respirar. A 4300 metros, qualquer esforço um pouco maior deixa-nos a arfar e meio tontos, principalmente os que têm gripe. São Pedro de Atacama é uma pequena vila perdida no meio do deserto, tornou-se nos anos 80 um paraíso hippie e hoje mantêm ainda um pouco dessa energia. Ruas estreitas de terra vermelha  e casinhas baixas de barro desembocam na praça principal onde  a modesta Igreja secular se destaca como ex-libris desta cidade saída de um filme de índios e cowboys. Também se tornou num destino turístico muito procurado por servir de base à exploração das várias atracções do deserto do Atacama, as hosterias são caras e encaixotam diariamente turistas em pequenos autocarros que percorrem o Salar, o Vale da Lua, os Géisers, os vulcões e as lagoas coloridas repletas de flamingos. A minha dor de cabeça não me dá descanso, engulo mais umas aspirinas e tento dormir uma “siesta” enquanto os meus companheiros de viagem exploram a cidade. Antes de sair de São Pedro de Atacama para a Argentina é necessário passar pela aduana para registar a nossa saída e carimbar os passaportes, a fronteira efectivamente fica ainda a 200 kms mas a 4600 metros de altitude por isso as aduanas ficam nas cidades mais próximas da fronteira a uns mais respiráveis 3000 metros de altitude.
Fronteira despachada saímos ao meio dia de São Pedro de Atacama depois uma visita ao Vale da Lua, um local impressionante que realmente parece de outro mundo. O que torna este vale especial é que em toda a sua extensão brota gema de sal do chão forrando tudo de branco, as formações gigantes de corais fossilizados dão ainda mais dramatismo ao cenário e as enormes dunas de areia vermelha transportam-nos realmente para outro planeta. A Alzira acordou novamente mal disposta e ficou tão impressionada com o vale da Lua que resolveu aliviar o peso do seu disco de travão traseiro.  Assunto resolvido (disco na mala) e segue viagem que temos uma cordilheira para atravessar! Foi viagem de pouca dura, poucos quilómetros e pouca altitude depois (3200mt) a Alzira volta a pedir a nossa atenção. Desta vez não passa dos 60 e está com gazes estranhos, metade das entranhas da Alzira já estão nas malas por isso rapidamente chegamos à conclusão que devem ser a velas sujas... mais um assunto resolvido! Segue! E seguimos... pelo ponto mais alto da viagem, tecnicamente falando claro, exactamente 4868 metros registados no GPS!!
Passamos por vários salares coloridos e por uma tabuleta que anuncia a Bolivia a apenas 500 metros. O Vulcão Lincancabur com os seus 6200 metros de altitude, um perfeito cone com neve no topo, marca a fronteira entre o Chile e a Bolívia. Passamos por vários vulcões e lagoas coloridas e finalmente chegamos ao passo da Cordilheira para a Argentina. O passo de Jama é só isso mesmo um passo, uma tabuleta que diz que o Chile termina e a Argentina começa ali! A Argentina construiu recentemente uma aduana a poucos quilómetros do passo de Jama. As fronteiras até agora tem sido muito tranquilas e fáceis de ultrapassar, mas desta vez encalhamos com um daqueles guardas super meticulosos que insiste em não nos passar o papel da importação temporária das motos. Segundo a sua argumentação as motos sendo de matricula brasileira não necessitam de importação temporária pois existe um acordo de livre circulação entre o Brasil e a Argentina. Nós em Buenos Aires recebemos uma ensaboadela da chefe da Alfandega para exigirmos sempre esse documento pois poderíamos ser impossibilitados de sair do pais sem ele. Cumprimos essas recomendações em todas as fronteiras mas este guarda recusava-se terminantemente a passar tal documento. Tentámos de tudo, pedir educadamente, explicar que poderíamos ter problemas em Iguaçu e que mesmo não sendo obrigatório seria para nós muito mais tranquilo levar a importação temporária. Nada! Às tantas o clima azedou e pedimos para falar com o chefe da aduana. Ele ironicamente respondeu que o chefe estava a 300 kms de distancia. Pedimos então para ele se identificar e passar um documento explicando porque razão não passava a importação temporária. Ele ficou furioso, disse que se identificaria e iria tirar fotocópias da lei de importação mas que iria investigar minuciosamente as nossas motos e que se encontra-se algo irregular teríamos de voltar São Pedro e entrar na Argentina por outra fronteira. Esta volta iria comprometer totalmente o nosso calendário e implicaria mais 1500 kms de estrada a mais de 4000 metros de altitude, engolimos em seco e aguardámos a inspecção. Duas horas de volta dos nossos documentos e das motos até ele renitentemente nos dar ordem de avançar. Ufa!
Depois do passo de Jama estávamos na esperança de começar a descer mas nada disso, rodamos 150kms a 4000 metros e depois mais 150km a 3500mts....  A minha cabeça só não explodiu porque tinha o capacete, mas a ajuda na bomba de gasolina de Susques veio a calhar. Um chá de coca e umas folhas da mesma planta medicinal para mascar aliviaram bastante a dor e a descida foi bem mais tranquila e agradável. Com os reparos da Alzira e a confusão na fronteira perdemos algum tempo e o sol resolve ir embora no ultimo salar, a verdadeira descida começa já com a noite escura. Os conhecidos "caracoles" em pouco mais de 100 kms levam-nos dos 3500 metros até aos 1500 metros isto claro contanto com as curvas, sim porque em linha recta pelo gps fizemos uns 30kms no máximo! Impressionante! Eu ia a descer todo satisfeito mascando a minha coca já sem dor de cabeça quando passa por mim o Rui que mesmo só com travões na frente ( o disco de trás ia na mala) foi a “raspar” todas as curvas, aliás a Alzira vai ficar na historia por ter sido sem duvida a única Cagiva a atravessar a Cordilheira dos Andes só com travões na frente. Chegamos finalmente a Jujuy, a primeira cidade do “Chaco” Argentino, abastecemos as motos e resolvemos dormir por ali mesmo.

MarÇo, 2006

De volta à Argentina

O "Chaco" é chato! Ou nem por isso, nós é que estamos mal habituados. Saímos de Jujuy relativamente cedo, esperava-nos "El Chaco" uma região plana com temperaturas muito elevadas e uma recta de 800kms! Depois de ler o relato do Rodrigo Moraes, um amigo brasileiro, estávamos preparados. Muita agua, gasolina de reserva e roupas preparadas e seguimos, seguimos e seguimos até o Teles furar. Por sorte foi logo depois do almoço e tínhamos a bomba de gasolina com um compressor de ar ali ao lado e tudo, sorte de Inshalá! Uma hora depois seguimos de novo pela paisagem igual e monótona apenas colorida pelas nuvem de borboletas que teimavam em vir contra as motos. Estava eu a pensar nas semelhanças desta paisagem com a savana africana e eis que surge outro ponto de interesse; A estrada de repente fica tão esburacada que tem de se andar pelas bermas... parece que estamos de volta à Guiné onde 95% das "estradas" são assim, o asfalto serve de separador central e a verdadeira estrada é nas bermas.
A noite caiu novamente e ainda estamos a 180kms de Corrientes onde tínhamos planeado dormir, resolvemos dormir aqui mesmo e não arriscar seguir de noite, existem muitos animais e pessoas nas bermas e os camionistas são meio loucos por isso mais vale prevenir. Ficamos em P.R Saénz Pena uma cidade pequenina mas muito movimentada onde já se nota o inicio da floresta tropical que nos espera assim que chegarmos às imediações do rio Paraguay.
Novo dia e nova incontinência da Alzira, desta vez um dos tubos de gasolina rompeu com o calor, apesar de ser uma regra de ouro nas viagens de moto parece que é nossa sina terminar o dia de viagem dirigindo de noite.... chegamos a Puerto Iguaçu era já noite escura. Passámos directo por Mendoza e Corrientes e desde então temos vindo a acompanhar o rio Paraguay.
As cataratas da Foz do Iguaçu são avassaladoras. A cascata conhecida como “A garganta do diabo” é especialmente impressionante, uma enorme depressão na rocha forma uma garganta imensa onde o rio se precipita por todos os lados. Não existem adjectivos para descrever tamanha beleza, é simplesmente uma das maravilhas do mundo. Ao contrário do que imaginávamos 80% das cataratas ficam do lado Argentino, existem passadiços de madeira que percorrem a floresta tropical que envolve as cataratas e que permitem visitar grande parte  do Parque Natural de Iguaçu. O lado Brasileiro tem apenas uma das margens mas orgulha-se de ter a melhor panorâmica geral das cataratas. Optámos por ficar no lado Argentino, viajamos num comboio que nos deixou no meio da selva, caminhamos por cima das cataratas, descemos parte do rio num bote de rafting, subimos num Unimog..... tudo isso colorido por milhares de borboletas, jacarés, macacos, tucanos, tartarugas e um sem numero de aves exóticas... que lugar magnifico!!
 No dia seguinte passamos para o Brasil, seguimos a dica do Daniel e ficamos na melhor pousada da juventude do Brasil, a pousada de Paudimar em Foz do Iguaçu. A pousada está cheia de backpackers de todas as origens que se distribuem pelo jardim, piscina e bar. O ambiente é muito descontraído, o gerente também gosta de motos e faz um desconto simpático alem de nos oferecer uma caipirinha. O Rui já conheceu umas backpakers francesas e está na conversa, o Teles está no bar, o André escreve o seu diário e eu comemoro o regresso ao Brasil com um mergulho na piscina. De tarde colocamos as motos numa oficina fazendo um pequena revisão, enquanto isso tínhamos planeado visitar a maior barragem do mundo e dar um passeio por Cidade Del Este no Paraguai. Nem uma coisa nem outra, o Paraguai fechou a fronteira como forma de protesto em relação ao reforço no controle da policia brasileira ao contrabando oriundo daquela cidade, só paraguaio entra e saí, todos os outros não podem sair nem entrar e isso durante 2 ou 3 dias até decidirem abrir de novo a fronteira. Na semana passada alguns turistas ficaram retidos no Paraguai 3 dias por isso resolvemos não arriscar. A Barragem só tem passeios de autocarro, com guia e programinha de meio dia e isso não é para nós, segue viagem.

MarÇo, 2006

O Rio de Janeiro continua lindo!

O caminho está bom e a estrada é devorada com algum facilidade, o ponto mais alto do dia, ou melhor da noite, foi a dormida. Ficámos num típico Motel brasileiro de beira de estrada! Com direito a cama redonda, espelho no tecto, som ambiente e mais uma série de adereços interessantes. Não sei o que aconteceu com o Rui e o André que ficaram juntos num destes quartos, mas lá que acordaram muito sorridentes...lá isso acordaram.  Ontem foi mais um dia a devorar estrada, a DR do Teles tem uma pequena fuga de óleo no radiador e tivemos de abrandar um pouco e tentar uma reparação com epoxy. A fuga diminuiu mas mesmo assim continuou a cair óleo nos pés do Teles, com isso chegamos a São Paulo eram umas 8 da noite. Fomos recebidos pela família Ventura, a família Chapolin e a família Etienne numa churrascaria daquelas de cair para o lado de tanta comida, mas soube bem..... soube muito bem!!
Ficamos na conversa contando as aventuras até tarde e depois atravessamos São Paulo até a casa do Silvio onde dormimos essa noite. De manhã tentámos com a ajuda de um mecânico amigo soldar o radiador de óleo do Teles mas sem grande sucesso, o Silvio ao ver a cara desanimada do Teles disponibilizou a sua Varadero novinha para que todos podéssemos continuar viagem até ao Rio de Janeiro. O Chapolin é outro dos grandes amigos que tenho no Brasil e vai acompanhar o resto da viagem na sua DR.
Saímos já tarde da casa do Silvio, guiados pelo Chapolin seguimos pela Via Ayrton Senna para evitar o transito pesado da conhecida via Dutra. Chegámos à Serra das Araras já com o pôr do Sol e atravessámos o centro do Rio já com noite escura, o objectivo é chegar rápido à Região dos Lagos por isso passamos directo para a ponte na direcção de Niterói, vemos o Rio na volta. Nos preparativos para a viagem acabei por me esquecer de trazer a chave da casa de Arraial, problema prontamente resolvido pelo Chapolin com um telefonema para o Alessandro Meau. Alô Alessandro, dá para ficar na sua casa de Cabo Frio esta noite??? Claro, ligo já para o caseiro e ele dá as chaves para vocês..”
O Brasil é assim, mais do que paisagens magnificas, praias soberbas e calor tropical são as pessoas que tornam este país inesquecível. A amizade aqui é servida em quantidade industrial. Conheci o Alessandro e a Gabi na ultima vez que estive por cá, juntos com a Verbena, o André, a Milene, o Silvio e o Chapolin percorremos todas as prainhas de Arraial, Cabo Frio e Búzios. Foi cumplicidade à primeira vista e desde então defino este grupinho como a minha família brasileira.
 Antes mesmo de descarregar bagagem fomos direito a um restaurante japonês velho conhecido, estamos no ponto mais a norte desta viagem e importa comemorar. O Teles a principio ainda tem alguma reserva acerca das iguarias japonesas mas não demorou muito a ficar fã do Sushi e do Saké. Comemorar é agora a palavra de ordem, estamos no final da viagem e importa afugentar a tristeza que acompanha todos os finais de viagem. Afogámos essa tristeza com uns mergulhos nas aguas da Prainha de Arraial, a lua foi a nossa única espectadora na noite que marca o principio do fim da viagem. Tinha reservado o dia seguinte para resolver alguns assuntos pessoais mas ainda deu tempo para ficar um pouco na praia dando uns mergulhos enquanto esperávamos pelo camarão frito ou pelo peixinho acabadinho de pescar, pela cerveja gelada não era preciso esperar, uma geleira cheia debaixo da mesa garantia a hidratação necessária neste calor.
Fomos ver o pôr do Sol ao Pontal, a ponta da península de Arraial do Cabo onde enquanto o sol se põe no mar a Oeste, a lua nasce no mar a Este, um espectáculo maravilhoso!
À noite fomos passear por Cabo Frio e resolvemos jantar uma bela picanha no restaurante do Zé. A picanha estava uma delicia e o Rui descobriu outra iguaria, o palmito!! Devorou duas saladas sozinho, está a redimir-se dos pecados mortais que cometeu durante toda a viagem, ele é o vegetariano mais apreciador de churrasco que eu conheço.
Tínhamos previsto sair de Cabo Frio cedinho, almoçar no Rio, ver as vistas e seguir para Paraty passando por Angra dos Reis. O problema é que no dia anterior antes do jantar eu esqueci o capacete numa loja e só dei conta do esquecimento quando precisei dele para regressar a casa já depois da meia noite! Obviamente a loja já estava fechada e estivemos de esperar hoje pelas 11 horas para recuperar o capacete. Com este esquecimento comprometi a partida cedo para o Rio, já que não temos de acordar cedo decidimos partir para a "balada" e aproveitar a noite. Começamos na Rua do Canal e ao ritmo que os lugares iam fechando nós íamos mudando de esplanada, conhecemos gente simpática, fizemos mais amigos e foi assim toda a noite até sermos presenteados com um nascer do Sol magnifico, desfrutado condignamente “verdascando” pelas dunas brancas de Cabo Frio.
Chegámos já de tarde ao Rio, passámos o centro, Botafogo, o Pão de Açúcar, Copacabana e instalamos acampamento em Ipanema.  Um cocos gelados num quiosque bem no calçadão e está cumprido o ultimo objectivo da viagem! Desfrutámos o momento, apreciamos as vistas e descansámos enquanto esperávamos o contacto do Alessandro. Ficámos de novo na casa do dele e da Gabi, a diferença agora é que não estamos na casa de férias, estamos mesmo na casa deles no Rio. Fica entre a Barra e o Recreio do Bandeirantes e dá dó ver a vista terrível que eles tem deste 22º andar, Mar, mar e mais mar. Agora estamos a jantar com o eles e com a Pyowany na Barra, fomos recebidos mais uma vez de uma forma soberba, acho que por mais que eu receba amigos em Lisboa, nunca vou conseguir retribuir esta hospitalidade. Visitar a cidade maravilhosa é sempre uma experiência agradável, mesmo com as noticias recentes da "guerra" exercito/traficantes esta cidade será sempre um dos lugares mais bonitos do mundo. Estávamos a jantar e no Telejornal só falavam da quantidade de militares nas ruas do Rio, à pouco passámos na entrada da Favela da Rocinha e pudemos comprovar que os pára-quedistas não estão ali a brincar. Vários carros de combate centenas de militares equipados até aos dentes e dois helicópteros Puma a sobrevoar a área.... parece uma zona de guerra, mas é só virar a esquina passar um túnel e de novo uma praia numa baia magnifica nos leva para outro mundo, o Rio é assim.
Ultimo dia no Brasil, não há como esconder a tristeza. Tem sido magnifico ter a companhia do Chapolin nestes dias, a nossa cumplicidade já era de esperar, mas o surpreendente foi a sua integração com o resto do grupo, ao fim de umas horas parecia que viajávamos juntos à meses. No regresso a São Paulo fomos mandados parar por um posto de policia, a culpa foi minha que nessa altura seguia na frente. O posto era no final de uma curva e os sinais que avisavam dos limites de velocidade foram tapados por camiões que circulavam devagar na faixa da direita, resultado; passamos a 30 centímetros dos policias a 130kmh... Tudo indicava que iríamos ser multados, mas muita conversa, futebol, motos e depois de se certificarem que não existiam argentinos no grupo os policias mandaram-nos seguir. Já perto de São Paulo a Varadero do Teles deitou fora um pedaço do pneu traseiro, a tela ficou exposta e não inspirava muita confiança por isso optámos por rodar bem devagar até chegar. A Verbena esperava por nós e nos guiou de volta a sua casa onde o André nos recebeu, o circulo fechou, estamos de volta ao ponto de partida! O Rolf chegou entretanto mas tem compromissos e não pode ficar connosco. Nós também não estamos com muito tempo, um banho rápido e de volta ao centro de São Paulo para a festa no Desmobuteco. Padu e companhia esperavam por nós para a festa de despedida, desta vez não há banda mas há churrasquinho e muita caipirinha. O André Verbeno preparou um CD com algumas fotos, o Chapolin também trouxe as suas fotos e na companhia de vários amigos membros da Big Trail e do Desmogrupo vemos pela primeira vez as imagens da viagem. A Verbena e a Cris aproveitaram o momento para organizar uma "balada" e sem ninguém perceber muito bem como, estamos a caminho da inauguração de um bar num bairro da moda de São Paulo. Somos mais uma vez bem recebidos (isto parece cliché mas é a pura realidade) temos uma mesa para todos e mais caipirinha, mais festa para esquecer que amanhã estamos de volta à vida real.
Hoje acordamos com um sabor amargo na boca, deve ter a ver com a caipirinha de ontem... ou com a proximidade do mundo real. O café da manhã é da responsabilidade da mãe da Verbena, e que pequeno almoço.... refiro apenas dois detalhes para não me alargar muito..... manteiga caseira e cuscuz feito na hora, uma delicia! O resto da manhã foi gasto a desmontar as motos e a arrumar as malas. O almoço foi no mesmo restaurante onde almoçamos no dia em que chegámos ao Brasil, exactamente à 46 dias, e a (in)digestão foi feita no transito de São Paulo até ao Aeroporto onde chegámos a 5 minutos de fechar o check in.
Quando o assistente da TAP viu as nossas malas ia tendo uma sincope, fartou-se de reclamar, que tínhamos peso a mais e que eram muitos volumes, nós já calejados do embarquem em Lisboa sacámos das cintas e dos elásticos das motos e amarrámos as malas de duas em duas. “Pronto, agora só temos dois volumes por passageiro!” O homem ficou furioso, esbracejava e resmungava que se algo se perde-se eles não seriam responsáveis, o nosso ar despreocupado deve ter resultado porque 11 horas depois nós e toda a bagagem desembarcámos em Lisboa são e salvos.
Esperavam por nós as respectivas famílias, o Carlos Martins o Amorim e o Casimiro. Voltámos à vida real, ao frio, à chuva e amanhã já tenho de ir trabalhar…. faltam 15 meses e 29 dias para a próxima!