Já passou um ano!
Este ano passou a correr, parece que o mês passado andávamos a vadiar
pela Guiné e agora já nos preparamos para voar para a América do
Sul. Contra todas as expectativas o projecto vai mesmo para a sua
segunda etapa, depois de Lisboa Bissau no ano passado vamos agora
para o Brasil cheios de vontade de degustar os 16000kms que nos esperam
entre o Rio de Janeiro e a cidade mais austral do planeta, Ushuaia
na Argentina.
Somos novamente quatro mas com algumas trocas de plantel, o Casimiro
mudou de emprego e não têm férias suficientes, o Carlos Martins anda
desvairado, o chefe enfiou-lhe um mega projecto na mão e não pode
sair do país por tanto tempo, como vingança já se prepara para ir
vadiar 3 semanas para a Mauritânia. Em vez deles vai o André Espenica
e o Rui Gomes. O André é um alentejano puro, calmo e ponderado, já
o Rui é o oposto, a sua energia transborda de tal forma que só de
estar com ele já ficamos cansados. O Martins que o conhece bem deu-me
algumas dicas, “não o deixes com fome….quando o gaijo ficar resmungão,
pára num café e enfia-lhe uma salada na frente ou dá-lhe umas bolachas,
é certinho, acalma logo…” tomei nota!
Como o André vive em Évora resolvemos marcar as reuniões de preparação
mais ou menos a meio caminho e seguindo os métodos habituais, comemos
vários petiscos e tomámos outros tantos canecos. Estas reuniões foram
novamente muito proveitosas, descobrimos várias tascas boas.
Fevereiro, 2006
Inicio de viagem diferente
Depois de quase tudo pronto para enviar as motos num contentor
para Buenos Aires tudo foi alterado nos últimos meses. Afinal vamos
utilizar as motas de amigos no Brasil. O André Etienne, o Silvio
Ventura, a Verbena e o Ralf são amigos que conheci no via net num
fórum sobre BigTrails do Brasil. Contactaram-me via e-mail no sentido
de ajudar na aquisição ou aluguer de motos para uma viajem que
planeavam realizar na Europa no verão de 2006. Na ultima viagem
ao Brasil conheci-os pessoalmente e falei deste projecto. Surgiu
aí a ideia da permuta de motos, nós utilizamos as motos deles na
próxima etapa Rio de Janeiro - Ushuaia e eles utilizarão as nossas
motos quando vierem viajar para a Europa. Simples não é?
Não!
As nossas motas já estão configuradas para estas viagens e já lhes conhecemos
as manhas, as de lá são uma incógnita. As Suzuki DR850 nunca foram muito comuns
em Portugal, as Cagiva Elephant 900 são mesmo raras entre nós, eu tenho sorte,
vou numa BMW igualzinha à minha mas também não é por isso que tenho menos trabalho.
É preciso inventar suportes de malas para as Dr, fazer tomadas de energia para
os Gps, e transportar tudo isso para lá! Resolvemos jogar pelo seguro e enviar
os pneus Continental TKC80 por correio, sai caro mas vale a pena pelas garantias
de segurança e durabilidade que eles nos oferecem. O Amorim tratou de criar sistemas
de energia para as quarto motas, o meu permite alimentar a câmera de filmar,
carregar a maquina fotográfica e ainda alimenta o GPS, tudo ao mesmo tempo, um
luxo!
Esta ultima semana tem sido estranha, vou à garagem todas as noites e fico meio
baralhado olhando as bagagens já prontas, tiro, reponho, arrumo… normalmente
estaria neste momento já com tudo montado na moto, mas desta vez a moto está
a 10.000kms de distancia. É uma sensação difícil de digerir, por um lado está
tudo pronto, certinho, organizado, por outro lado a noção que basta qualquer
pequeno contratempo para comprometer tudo...uma mala extraviada é o suficiente. Até
agora tem tudo corrido muito bem, o Silvio recebeu os pneus Continental que eu
enviei por correio, os suportes das malas de alumínio estão prontos e têm óptimo
aspecto,
o
André e a Verbena já trataram de toda a documentação nos consulados dos países
a visitar, o Espenica fez uma recolha de mapas incrível, as motas estão revistas...
apesar de tudo aparentemente tão bem organizado o aperto no estômago continua.
O primeiro dia desta viagem teve 36 horas.... pelo menos para
nós 4. Chegámos mais mortos que vivos a São Paulo depois de 11
horas de voo directo e 1 de ligação. No aeroporto de Madrid o jantar
teve de ser inventado, todos os restaurantes à excepção de um estavam
fechados e como é obvio esse um estava com uma fila em que em vez
de jantar tomaríamos o pequeno almoço. Há que improvisar e umas
bolachinhas de àgua e sal, uma palete de Jamon Serrano e um Toblerone
da loja de souvenirs resolveram a questão. Já em São Paulo o André
Etienne estava à nossa espera no aeroporto e rapidamente fomos
para… uma churrascaria ora pois... que isto das motos pode esperar!
Já com a companhia do Silvio e da Verbena passamos toda a tarde
na garagem/oficina/concessionário/bar do André a preparar as motos,
monta mala, tira mala, martela mala, aperta, desaperta e pelas
6 da tarde tínhamos tudo orientado. Hora de..... FESTA ora pois....
que isto do descanso pode esperar (onde é que já li isto...)
O
Desmogrupo (um grupo de masoquistas donos de Cagivas elephant)
preparou uma desmofesta, no desmobuteco, com a desmobanda e desmochurrasquinho
e tudo.... querem acabar com os portugas!!!! Uma recepção inesquecível,
a generosidade dos amigos que encontrámos por cá e que nos receberam
de braços abertos é impossível de explicar por palavras, sentimo-nos
em casa, totalmente em casa... quem tem amigos destes vai até ao
fim do mundo...
O Ralf deu abrigo na sua casa a toda a comitiva portuguesa, com direito
a pequeno almoço tipicamente brasileiro e o André foi nos acompanhar
à saída de São Paulo, que é como quem diz uns 40 kms.... que cidade
gigante.... assustadoramente grande
Fevereiro, 2006
O Brasil
O dia foi de prólogo... ambientação a tudo, estrada, transito,
camiões, calor, e claro as motos diferentes...
Saímos tarde, e
o primeiro trecho tem muitos camiões, a medo vamos devagarinho,
com todas as precauções até ao almoço. Um “boteco” de camionista
de beira de estrada com buffet “Coma o que puder por 6 reais” (+
ou - 2 euros) pareceu bem e soube ainda melhor. Seguimos por mais
um deposito, 300 kms e nova paragem... desta vez a ambientação
passa por uns pasteis de queijo, regados com caldo de cana e açaí,
para sobremesa uma cocada! Seguimos por um vale muito bonito que
desce a serra de Curitiba até à costa, depois saímos da estrada
principal e rumámos já com o pôr do Sol a Jaraguá do Sul para ir
ver a Milene.
Ela, especial como sempre, adivinhou a nossa vinda
e nos obrigou, literalmente, a ficar em sua casa. Um serão delicioso
no restaurante de sua irmã teve depois continuidade numa gostosa
conversa no relvado do seu jardim sobe um céu estrelado e uma temperatura
tão agradável que acabei dormindo... no relvado mesmo.
Estivemos com a Milene até perto da hora de almoço, gostaríamos de ficar com
ela mais uns dias mas Ushuaia fica longe e à que continuar. Fomos a uma oficina
Suzuki de um amigo dela para uma afinação básica das motos e seguimos viagem,
passámos por Pomerode conhecida como a cidade mais alemã do Brasil, com igrejas
e casas tipicamente germânicas, não fosse vegetação tropical e o calor húmido
e mais parecia que passeamos pelo vale do Reno. Almoçámos em Blumenau e seguimos
novamente para a costa, primeiro por Florianopolis, Balneário Camboriu e depois
por Porto Belo e Bombinhas. Aqui aconteceu o drama do dia, uma autentica catástrofe
nos nossos planos traçados ao milímetro... segundo os quais deveríamos estar
agora 1000kms mais a Sul. Encontrámos uma praia idílica em que é possível montar
as tendas literalmente a 3 metros de uma agua com 28º.... foi impossível continuar
a viagem, tínhamos de dormir aqui!
Saímos de Bombinhas logo cedo na direcção de Porto Alegre, 300 kms depois saímos
da interminável BR 101, que liga todo o Brasil de Norte a Sul pela costa. Em
plena fronteira entre os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul encontrámos
a entrada para a primeira travessia todo-o-terreno prevista no roteiro. Optámos
por este roteiro para conhecer de perto a famosa serra gaúcha e fugir da monotonia
da via rápida. Atravessámos demoradamente o Parque Natural dos Canyons e o Parque
Natural do Intambezinho e terminámos o dia em beleza alojados no camping da família
Melo junto ao Parque Natural do Caracol em Canela.
O dia seguinte estava previsto
para percorrer todos os recantos desta região mas a TPM da Alzira (que é como
quem diz o motor de arranque da Cagiva) resolveu não colaborar e ocupou praticamente
todo o nosso dia. Só parámos o tratamento da Alzira quando as ferramentas disponíveis
não eram suficientes para a reparação. Mesmo assim deu para conhecer Canela,
Gramado e ficar maravilhados com a Cascata do Caracol.
A região Gaúcha é fértil
em motivos de interesse mas os seus restaurantes merecem um destaque especial,
durante um rodízio típico o Rui abandonou oficialmente a sua dieta vegetariana
e entregou-se à tentadora variedade de carnes no churrasco. Para a ajudar à digestão
decidimos visitar uma inauguração de um bar bem ao lado do
restaurante, aqui
a variedade é também muito exuberante mas noutro sentido. Ontem, depois de um
típico café colonial (uma variedade incrível de petiscos regionais) descemos
a Serra e encontrámos em Nova Hamburgo a oficina do Reni que o Sr. Melo nos havia
recomendado. O Reni e a sua equipa são super eficientes, acolheram-nos e repararam
o motor de arranque o mais rápido que conseguiram. O André, a Verbena, o Rolf
e o Raul vieram ao nosso encontro juntos rumámos a Pelotas. Ficamos numa pequena
cidade a poucos quilómetros do objectivo do dia mas no caminho certo e com os
problemas resolvidos! 
Fevereiro, 2006
Uruguai, o Mar de Prata e Buenos Aires.
Hoje atravessamos todo o Uruguai junto à costa, e subimos o Rio
Prata até Colónia do Sacramento, nada mau, uns 890 kms por prados
intermináveis num país muito belo com estradas de fazer inveja
a muitos países que gostam de dizer que são do primeiro mundo.
Montevideu é uma cidade muito bonita, limpa e colorida mas o melhor
deste pais são as paisagens rurais, em que os prados verdes salpicados
de vacas e cavalos parecem parados no tempo fazendo lembrar aquelas
comunidades católicas ultra conservadoras do interior dos Estados
Unidos. No interior do país a locomoção animal é ainda bastante
utilizada e a quantidade de fazendas de gado devem fornecer muita
da carne que nos chega aos supermercados de Lisboa como sendo da
Argentina.
O Parque automóvel é também uma curiosidade, Buicks
e Chevys dos anos 60 dão um colorido muito pitoresco às poucas
estações de serviço. Agora estamos em Colónia del Sacramento, uma
cidade fundada por portugueses no sec. XVII e orgulhosamente preservada
pelos Uruguaios. A cidade tem um forte português e algumas ruas
que ainda preservam as placas em azulejo tão lusitanas. É um ponto
turístico muito concorrido, tanto pelo centro histórico como pela
sua posição estratégica bem em frente à cosmopolita Buenos Aires
do outro lado do Mar da Prata. Amanha apanhamos o ferry que liga
estas duas cidade, é a travessia mais curta possível desta enorme
massa de agua que Fernão de Magalhães pensou ter ligação para o
Pacifico.
O dia reservado para Buenos Aires acabou por ser passado na companhia do Javier
e da Sandra, o casal "portenho" que gere a DakarMotos (www.dakarmotos.com),
um poiso obrigatório para quem viaja por estas bandas em duas rodas. Já tínhamos
planeado a passagem pela sua casa/oficina/albergaria/camping mas a vontade transformou-se
em necessidade depois da embraiagem da GS ter anunciado a sua morte ainda no
sul do Brasil.
Como conhecia o Javier desde os preparativos iniciais para
o transporte das motos para Buenos Aires, achei que ele estaria mais apto a cuidar
da minha embraiagem cansada do que as oficinas do Brasil. Para além disso ele
conseguiu um disco de embraiagem por 250 USD, bem mais em conta que os 1500USD
que me tinham pedido na BMW de Porto Alegre.
Acabei por não comprar a embraiagem porque o Ralf trazia uma de substituição
e enquanto
ele e toda a restante comitiva foram conhecer a cidade eu o Javier
e o Teles passamos a tarde inteira a desmontar meia mota para substituir o disco.
Ao contrario do que possam pensar foi uma óptima tarde, o Javier e a Sandra são
magníficos, hospitaleiros, prestativos e não escondiam a grande satisfação de
estar a receber os primeiros portugueses. A Dakarmotos é uma oficina modesta
mas muito aconchegante, tem ferramentas básicas mas muito boa vontade e espírito
Inshalá, tem ainda uma pequena camarata e um jardim onde é possível acampar.
A hospitalidade e simpatia da Sandra e do Javier são famosos entre os motociclistas
viajantes, ficar na DakarMotos é garantida de conhecer pessoas interessantes,
a Katja e o Martin por exemplo estão acampados no jardim e percorrem a América
do Sul à 21 meses nas suas Africa Twin, no beliche do lado está o Simon
que à 3 semanas faz calmamente uma revisão completa à sua MZ depois de
7 meses na Patagónia…
Fevereiro, 2006
A Patagónia
No dia seguinte seguimos até Bahia Blanca e ontem chegamos
ao santuário de vida selvagem chamado Península Valdez. Montámos
base em Puerto Pirâmides, uma pacata vila de pescadores que
se tornou numa pacata vila de turismo ecológico e hoje reservamos
o dia para contornar esta península classificada como Património
Natural da Humanidade. Realmente a quantidade de vida selvagem
é impressionante, vimos guanacos, pinguins, focas, elefantes
marinhos, lobos marinhos e uma infinidade de passarocos, mas
as orcas não se mostraram...é aqui nestas praias geladas que
são filmados aqueles
documentários onde as baleias assassinas vêm
à praia caçar filhotes de foca. Fizemos no total uns
350kms de ripio, umas pistas largas de gravilha onde se roda
numa media de 100/110 quilómetros hora....
com alguns sustos
pelo meio. Saímos de Puerto Pirâmides e iniciamos a travessia
da Patagónia, a nossa rota prevista implicava um desvio para
Oeste na direcção da Cordilheira Andina mas optámos por continuar
a seguir para Sul junto ao Atlântico. As distancias aqui são
impressionantes e assim jogamos pelo seguro e poupamos algum
tempo para desfrutar com mais calma as belezas do Sul. Dormimos
a 15 kms de Tecka numa aldeia que mais parece do velho oeste,
pickups e carros americanos dos anos 60 continuam a rolar sem
problemas, a população é maioritariamente indígena (pré colonial)
e realmente tem um aspecto muito semelhante aos esquimós/mongóis.
Ao contrário dos portugueses no Brasil, os espanhóis não se
misturaram com os nativos e isso é bem visível na fisionomia
dos locais.
É difícil escrever sobre a Patagónia, não há como a reproduzir em fotos, a descrever
em palavras, há que ir lá para a sentir. Um imenso horizonte, milhares de quilómetros
de planícies, um céu inacreditável, um vento gelado constante e um pôr do sol
que dura 2 horas. Durante um desses espectáculos de fim de tarde chegamos à nossa
próxima paragem, Puerto San Julian.
Esta
pequena cidade está localizada numa agradável baía e tem a particularidade de
ter sido escolhida por nomes como Magalhães
e Drake para restabelecer forças antes de rumar ainda mais a Sul. Devo confessar
que este é um local que tinha muita vontade de conhecer,
sempre fui um apaixonado
pelas aventuras dos marinheiros portugueses e numa das ultimas visitas ao Museu
da Marinha descobri um livro que relata a primeira viagem à volta do Mundo de
Fernão de Magalhães. Este livro compila vários diários de marinheiros que acompanharam
Magalhães na sua odisseia mas as descrições minuciosas de Pigaffeta, um marinheiro
genovês, são incrivelmente precisas mesmo actualmente. É certo que as galinhas
difíceis de depenar e com sabor a peixe se chamam actualmente pinguins e que
as burras de pescoço longo que dão leite, carne e pele boa são conhecidos também
como guanacos, mas isso são pequenos pormenores.
Numa placa junto da baía pode-se ler: “Aqui nasceu a Patagónia”, foi aqui que
o navegador português viu pela primeira vez os nativos locais, eram muito altos
vestiam-se com peles de animais que também utilizavam para fazer uma espécie
de botas, a tripulação chamou estes gigantes de pés grandes de patagãos e daí
o nome Patagónia. As tripulações de Magalhães e de Drake passaram 6 meses nesta
baía a recolher viveres e a esperar pelo
fim do Inverno antes de rumar mais a
Sul. Nós temos menos tempo, apenas um dia que gastámos da melhor forma possível;
um passeio de barco a uma pinguinera numa ilha perto, um regresso pela baía acompanhados
de perto por golfinhos brincalhões e uma visita à replica da nau de Magalhães
“Vitoria” ajudaram a restabelecer força para enfrentar mais umas centenas de
quilómetros pela Patagónia Argentina. Ainda antes de sair o Teles perguntou ao Magalhaes em pessoa qual o melhor caminho para o Fim do Mundo.
A sul desta agradável baía a paisagem é forrada por inúmeros poços de petróleo,
esta região é muito rica neste produto e graças a isso à quase 3000 quilómetros
que andamos a atestar os depósitos das motos com gasolina a 40 cêntimos o litro.
É certo que nos primeiros quilómetros não deixa de ser uma visão diferente e
até pitoresca ver as bombas coloridas que puxam o petróleo das profundezas, mas
depois de algumas horas a coisa fica um bocadinho monótona.
MarÇo, 2006
No Fim do Mundo
Antes de chegar a mais um dos marcos desta viagem, o Estreito
de Magalhães, é necessário sair da Argentina e entrar
no Chile. A fronteira é fácil de passar, a única coisa a
ter em atenção é ultrapassar todos os autocarros de turismo
antes da fronteira senão em vez de 20 minutos gastamos 2
horas. Ainda pensámos em dormir em Rio Gallegos a ultima
cidade Argentina antes do estreito, mas a cidade é feia e
ainda tínhamos algumas horas de dia para rodar.
A travessia do estreito foi uma experiência radical, é certo que o local tem
já uma mística especial, mas o mar encrespado e o vento forte deram ainda mais
mística ao momento. Estou eu na proa do ferry a imaginar aqueles marinheiro loucos
lutando com as velas das suas frágeis cascas de noz por estes mares revoltos
quando uma onda gelada me acorda bem a tempo de ir a correr para segurar a GS
antes que ela se deite no chão de tão enjoada.
A “Tierra del Fuego” também foi baptizada pelos marinheiros de Magalhães. Segundo
as descrições de
Pigaffeta enquanto navegavam no estreito observaram muitas fogueiras
nas margens, os capitães para acalmarem as supersticiosas tripulações diziam
que eram os simpáticos patagãos que lhes indicavam o caminho mais seguro. Na
realidade os “fueguinos”, como mais tarde vieram a ser conhecidos os nativos
desta ilha, não dominavam a criação do fogo e por isso mantinham sempre as suas
fogueiras acesas. Talvez por isso ou talvez não o facto é que não se vislumbra
nenhuma arvore na região, apenas pequenas casas construídas em chapa ondulada
pintadas com cores vivas quebram a mancha verde da erva rasteira que balança
com o vento forte vindo do Atlântico.
Dormimos numa "Estancia" típica desta região construída por uma família
inglesa que colonizou estas terra no sec. XVIII para explorar a criação de ovelhas.
O Teles quebrou a corrente a 15 kms da “Estancia” e só perto da meia noite conseguimos
resgatá-lo, já tinha a sua tenda meio montada e preparava-se para dormir. Os
quartos aqui são caros, 25 dólares por cabeça, mas a lareira a estalar e a beleza
da “Estancia” minuciosamente preservada com mobília original dão um charme que
merece a despesa extra. Conhecemos 2 brasileiros que regressam de Ushuaia com
as suas BMW 1200GS, falam que a pista principal está muito esburacada e os camiões
e autocarros são muitos e perigosos, as marcas das pedradas nas GS comprovam
isso mesmo.
Pouco depois da “Estancia” o asfalto termina, parece que as temperaturas extremas
não são muito amigas do asfalto e 90% das estradas da Tierra Del Fuego são em
terra batida.
Optámos por seguir por uma pequena pista que atravessa esta ilha
pelo interior em vez de ir pela estrada principal, assim evitamos o vento forte,
as pedradas dos camiões e conhecemos zonas supostamente mais preservadas. Acertámos
com a escolha, foram mais de 200 quilómetros por vales verdejantes onde apenas
alguns guanacos nos fizeram companhia. Na terra de ninguém entre o Chile e a
fronteira com a Argentina reparei que os campos são minados mas ao contrário
da Mauritânia são muito bem sinalizados. Parece que estes vizinhos têm ainda
algumas questões por resolver neste fim de mundo, o Chilenos para chegarem às
suas cidades mais austrais tem de atravessar a Patagónia Argentina, por seu lado
os Argentinos da Tierra del fuego tem de atravessar o Chile para chegar aos seus
domínios mais a Sul.
Eram perto das 10 da noite quando chegamos a Ushuaia. Estes dois
dias foram muito intensos, preenchidos com momentos fortes. A
travessia do Estreito de Magalhães, a entrada na Tierra del Fuego
e a chegada a Ushuaia foram emoções a mais em tão pouco tempo.
Via SMS partilhámos o momento com os amigos que ficaram em Lisboa
e procurámos um hotel. Terminámos o dia comemorando a chegada
ao objectivo da viagem com uma deliciosa “santoja” (uma espécie
de Santola gigante conhecida no Alasca como King Crab) e muito
“Pisco”. Hoje reservamos o dia para visitar Ushuaia e o Parque
Nacional da Tierra del Fuego. 
Tudo aqui é avassalador, começa
pela chegada a cidade, depois de dias e dias de planícies surge
na nossa frente uma cordilheira com picos neva dos. Os forros
gore-tex, polares e afins estão todos vestidos, a temperatura
caiu bruscamente no ultimo dia. Uma estrada com curvas fantásticas
(finalmente curvas...) desemboca no canal de Beagle e na cidade
mais austral do planeta. O Parque não tem descrição possível,
não existem adjectivos para tamanha grandiosidade, natureza pura!
Lagos multicoloridos, picos neva dos, castores, veados, falcões,
florestas jurássicos…. o fim do mundo é lindo!
MarÇo, 2006
A Cordilheira dos Andes
Depois de um dia e meio desfrutando a cidade mais austral
do planeta voltamos ao caminho. Fizemos uns 450kms por
pistas de ripio sempre com o Estreito de Magalhães à vista
a uns deliciosos 120 quilómetros hora, a pista é maravilhosa
e a cada curva oferece-nos uma nova paisagem deslumbrante.
Chegamos a Provenir com o pôr do sol, e que pôr do sol!!!
O céu forrado de cores quentes espelhava nas aguas do estreito,
a separar estes dois elementos a linha do horizonte recortada
por picos glaciares tornava este momento perfeito! Provenir
é uma pequena aldeia de pescadores que tem um ferry diário
para Punta Arenas no Chile. O problema é que o horário
não e de fiar
e só quando chegámos à aldeia conseguimos
confirmar que a partida seria apenas às 7 da noite do dia
seguinte. Optamos por seguir viagem por mais 200km de ripio
e mais pistas maravilhosas sempre na companhia do “nosso”
estreito, acabando por contornar toda Tierra do Fogo Chilena.
Atravessamos na Bahia Azul e comprei mais uns presentes
para os amigos, que é como quem diz, juntei algumas pedras
do Estreito de Magalhães as que já tinha recolhido numa
praia do fim do mundo. O objectivo agora era chegar rapidamente
a El Calafate e começar a explorar a Cordilheira
do Andes, mas como Rio Gallegos é a maior cidade da região
achámos que uma noite aqui para reparar alguns pequenos
problemas nas motos seria boa ideia. Melhor ideia foi mesmo
a escolha do restaurante, já somos fãs do “Bife Chorisso”
(uma espécie de posta mirandesa mas com o dobro do tamanho)
mas desde que descobrimos o Pisco Chileno todas as noites
terminam em festa, afinal precisamos ganhar energia para
subir os Andes.
A visão que se tem da chegada a cordilheira é sem duvida uma experiência marcante
que nos vai acompanhar o resto da vida! Depois de dias e dias de pampa e planície
infinita (apenas quebrada pelos picos de Ushuaia) chegamos à cordilheira. Como
chegamos cedo a El Calafate, optamos por ir directo para o Parque Nacional dos
Glaciares e ver o famoso Perito Moreno.
O Glaciar Perito Moreno é o único no planeta que continua a crescer apesar do
aquecimento global. Um rio de gelo milenar nasce nos campos de gelo no topo dos
Andes e desce dois metros por dia na direcção do lago Argentino. Com uma altura
de mais 170 metros e uma largura de 5 quilómetros ele afunda no lago e estala
constantemente, desprendendo grandes Icebergues em explosões espectaculares.
não é mas devia ser uma das 7 maravilhas do mundo. Gigantesco e belo é outras
das visões inesquecíveis que vamos levar deste lugar.
Caminhamos demoradamente pela encosta oposta ao Glaciar e terminamos a tarde
num café perto do lago a degustar a cachaça oferecida pela Milene com gelo milenar...
só faltou o limão e açucar para a caipirinha. O ripio pelas margens do lago trouxeram-nos
de volta a El Calafate, onde terminamos o dia com uma tábua de queijos e um bom
vinho.
O próximo destino chama-se El Chaltén, uma pequena aldeia na base da montanha
com o mesmo nome. Para lá chegar percorremos 400kms de ripio pela Ruta 40. Famosa
pela sua extensão e isolamento, são mais de 4000 quilómetros de pista em cascalho
grosso sempre com a amplitude da patagónia de um lado e a cordilheira dos Andes
do outro. Os Glaciares alimentam os lagos que por sua vez escoam por rios poderosos
de um azul inacreditável. Esta cor é provocada pela agua glaciar do grande campo
de gelo da Patagónia no topo da cordilheira dos Andes, a 3ª maior reserva de
agua doce do planeta. Durante muitos quilómetros a Ruta 40 acompanha um destes
rios que desce da cordilheira na direcção da planície infinita da Patagónia Argentina.
Cerro Chaltén significa na língua indígena Tehuelche “montanha que fuma”
devido ao facto de frequentemente o topo desta montanha estar coberta por nuvens.
Era uma montanha adorada e considerada sagrada. Mais tarde foi baptizada pelos
colonizadores europeus como Fitz Roy em homenagem ao capitão do navio Beagle.
Simplificando a coisa é um calhau de granito com 3800 metros de altitude em forma
de agulha com neve no topo, rodeado por outros calhaus com a mesma forma....
isto tudo espalhado por alguns milhares de km quadrados com mais um rio azul
turquesa a correr pelo vale anexo e com umas florestas jurássicas para colorir
ainda mais a coisa... básico!!
Não satisfeitos com esta visão ainda percorremos mais uns 120kms até ao Lago
Del Desierto acompanhando o tal rio turquesa até à sua nascente. Dormimos acampados
mesmo na base do Fitz Roy e no dia seguinte regressamos demoradamente a El Calafate.
Recebemos a noticia de que o Barco de P. Natales foi alterado para o dia seguinte,
com isso ganhamos um dia aqui mas perdemos um no Chile, vamos ter de compensar
isso mas para já estamos com tempo e dentro do previsto. É bom ter tempo!!! As
etapas agora são pequenas e de ripio, para alem disso as paisagens cada dia são
mais arrebatadoras por isso e um prazer degustar estas paragens com tempo.
Montámos
as tendas nas margens do lago Roca a 30 kms da cidade e no meio de uma floresta.
O dia seguinte é de descanso, vou passar por um cybercafé, lavar a roupa e vadiar
pelas redondezas. Os Andrés, a Verbena o Raul e o
Rolf vão passear de barco e
ver os glaciares, eu acabei por encontrar o Teles numa pista que subia uma montanha
adjacente ao Lago. Resolvemos explorar e subimos, subimos continuámos a subir
até perceber que o caminho era afinal uma pista de ski em construção onde um
restaurante parecia estar ali só à nossa espera. Uma galinha caseira acabadinha
de sair do forno, um excelente vinho Argentino, uma lareira a estalar e 180 graus
de panorâmica para o Lago Argentino foram mais que suficientes para dar por terminado
o dia.
MarÇo, 2006
O Chile
Ai..... é a palavra mais escutada hoje, ontem uma caminhada
de 8 horas no coração do Parque Nacional Torres del Paine
deixou todos muito doloridos. Passamos lá duas noites
depois de termos decidido ficar em Puerto Natales na
primeira noite que chegamos deste lado da Cordilheira,
já no Chile. O Parque é fantástico e a cada curva, a
cada morro tem uma nova paisagem para fotografar, lagos
verde jade, montanhas de pedra nua, cumes neva dos, cascatas
poderosas, glaciares perdidos, enfim… foram 300 fotografias
em 160 kms de ripio feito nas calmas! Dormimos no acampamento
Las Torres, o mais próximo das enormes formações rochosas
que dão nome ao Parque, mesmo assim foi necessária a
tal caminhada de 8 horas sempre a subir para chegar à
base dos calhaus, foi duro
mas é mais um daqueles momentos
que vamos recordar para sempre, valeu muito a pena. A
manha acordou fresquinha, nuvens altas, ripio molhado,
Torres del Paine ao fundo, 110kms hora... temos 1 hora
para comer algo antes de embarcar as motos no navio da
Navimag rumo a Norte, rumo a Puerto Mount!!
Dizem que esta é a segunda viagem de barco mais bela do mundo, parece que a primeira
é na Nova Zelândia, um destes dias temos de verificar. Não tivemos muita sorte
com o tempo mas acabámos por ter sorte noutras coisas, eu e o Teles partilhámos
a cabine com duas backpakers, uma francesa e uma canadiana que traziam uma mochila
cheia de vinho chileno. Eu no segundo dia recebi a alcunha de “laundry man”,
descobri uma maquina de lavar numa salinha ao lado da cabine e aproveitei os
dias da navegação para lavar toda a roupa da viagem.
A rota do navio cruza fiordes
selvagens, locais intocados onde a civilização ainda não chegou, passamos por
Glaciares, por passagens estreitas onde o navio quase roça as margens, somos
acompanhados por focas e golfinhos mas o tempo continua fechado. O Teles viu
uma baleia e montou guarda para ver se vê mais, o Rui já conhece metade das backpackers,
o resto da comitiva entregou-se ao Pisco chileno e passa a vida a festejar, eu
entre uma maquina de roupa e outra aproveito para ler mais um pouco sobre o Atacama
enquanto ajudo a Michelle a aliviar excesso de peso na sua mochila/garrafeira.
O ambiente no navio é muito engraçado, há de tudo, famílias de férias, camionistas,
locais, motociclistas mas a grande maioria são backpackers de todas as origens
imaginárias.
A Piu é uma israelita muito simpática que viaja sozinha pela América
Latina, passámos várias horas à conversa, trocámos dicas e combinámos um reencontro
nas cataratas do Iguaçu onde a nossa rota se deve voltar a cruzar mais ou menos
na mesma altura.
Finalmente atracámos em Puerto Mount, tenho que confessar que já estávamos todos
com saudades das motos, especialmente depois da ultima noite quando o navio teve
de sair das aguas calmas dos fiordes e entrar em mar aberto. Nestas latitudes
o Pacifico não é assim tão pacifico, na ultima noite
mais de metade dos passageiros
chamou um tal de Gregório.
Saímos do navio directamente para a estrada Pan-americana com uma chuvinha chata.
Poucos quilómetros depois essa chuvinha chata transformou-se em temporal e chegou
a altura de inaugurar os impermeáveis que como é normal nestas circunstancias
estão sempre no fundo das malas. Exactamente a 35 quilómetros de Puerto Mount
o sensor hall da minha GS não gostou da chuva forte e calou o motor... já no
ano passado tinha tido este problema na pista da praia na Mauritânia e por pouco
não entrei em pânico, desta vez já sei do que se trata. Monto a tenda, saco das
bolachas e do chá e preparo-me para esperar que o sensor seque. Os companheiros
de viagem foram regressando à minha procura, o Teles foi o primeiro a chegar
e ajudou-me a levar a moto para uma paragem de autocarro
onde desmontei a tampa
do motor para arejar o sensor. O Ralf para surpresa geral traz um sensor hall
novo de reserva, 30 minutos depois estamos de novo a rodar rumo a Ozorno. Esta
é a ultima noite do grupo todo, a comitiva brasileira regressa daqui directo
para São Paulo, nós os Portugas seguimos até ao deserto do Atacama e só depois
regressamos ao Brasil.
O Rolf, a Verbena, o Andre e o Raul vão fazer falta, com eles a animação é garantida
e viajar é ainda mais um experiência magnifica! Depois das despedidas devorámos
900kms de Pan-americana até perto de Santiago. Depois de varias tentativas sem
sucesso de contactar o Mário, um amigo Chileno, optamos por atravessar pela costa
evitando a confusão de Santiago. Acampamos nas margens de um lago entre Vina
del Mar e ValParaíso. Esta é a região de veraneio de eleição dos Chilenos, uma
espécie de Cote d’azur do Pacifico.
A cidade de ValParaíso é bonita e organizada
e contrasta as avenidas largas bordejadas de palmeiras com as
enormes favelas que cobrem todos os morros circundantes. Parámos para um refresco
numa das praias do centro e reparei nos sinais de transito que indicam corredores
de fuga em caso de Tsunami, estamos numa das margens do instável anel de fogo
do Pacifico e os sismos violentos são esperados a qualquer momento.
Visitámos demoradamente a casa de Pablo Neruda numa aldeia perto de ValParaiso
e voltamos à estrada pelas 3 da tarde, o objectivo era subir o mais possível
até anoitecer. Até às 7 da tarde não correu mal, mais 450 kms "comidos" mas
depois veio mais uma avaria na Cagiva.
Alzira é o nome da Cagiva Elephant 900 do nosso amigo Túlio. No sorteio da distribuição
das motos ela calhou ao Rui que rapidamente se apaixonou pelas curvas e cores
da bonita Alzira. O problema é que como toda a mulher bonita a Alzira é muito
manienta e adora chamar a atenção. Durante toda a viagem ela praticamente dia
sim dia não pedia um carinho. Começou pelo botão de ignição colado, depois o
motor de arranque gripou, mais tarde a embraiagem deixou de funcionar, ficou
sem luzes algumas vezes, estoirou alguns retentores, os manómetros já deixaram
de funcionar à algum tempo e agora no auge da sua TPM (tensão pré menstrual)
ela resolveu cuspir a corrente no meio da estrada Pan-americana. Estamos no meio
do nada, faltam 90 kms para a cidade mais próxima e nenhum dos elos de ligação
que trazemos servem naquela corrente, nem mesmo um original Cagiva que o Rui
trouxe de Portugal!
Reboque (ler GS) a funcionar até um restaurante a pouco
mais de 8 kms. Quando nos preparávamos para acampar atrás de umas casas eis que
surge esbelto um camião com uma pick-up em cima, os nosso olhos cintilaram com
tamanha solução. Pensado, dito e feito, meia hora e 20.000 pesos depois (40USD)
estamos todos a caminho de La Serena! O Rui vai com o camionista e a Alzira vai
à conversa com a pickup.
La Serena é uma cidade muito agradável, limpa e com algumas construções históricas,
passámos a manhã numa oficina tentado adaptar um corrente Honda na Cagiva. Resultou
e depois de umas “empanadas” para acalmar o estômago continuámos viagem para
Norte.
MarÇo, 2006
O Deserto do Atacama
Pouco depois de La Serena a paisagem muda gradualmente
e começamos a subir em altitude. As vinhas e pomares
tão abundantes no sul dão lugar a zonas cada vez mais
áridas e ventosas. Em apenas algumas centenas de quilómetros
entrámos no coração do Atacama, a vegetação desapareceu
completamente e a paisagem agora é de montanhas nuas
com inúmeros tons de castanho e vermelho.Voltámos
a descer ao nível do mar e subimos pela costa até Chañaral,
uma cidade mineira com aspecto deserto. Segundo apurámos
no restaurante onde jantámos toda a cidade foi evacuada
pelo governo devido à contaminação do ar e das aguas
por arsénico usado nas minas de cobre, restam poucos
habitantes que se recusaram a abandonar a cidade.
Nós
que já nos preparávamos para um peixinho frito depressa
perdemos o apetite e resolvemos alterar o pedido para
uns “bife chorisso” de vacas da Patagónia. Ficámos
todos no mesmo quarto na única hosteria aberta que
também funciona como sala de jogos e cybercafé, a casa
de banho fica no andar de cima e é única para toda
a hosteria, o salão de jogos de noite é transformado
em garagem.
Na saída da cidade começa o Parque Nacional do Pão de Açúcar, o interesse deste
parque era duvidoso, mas tínhamos a informação que atravessando o parque pouparíamos
quase uma centena de quilómetros em relação a continuar na estrada Pan-americana.
A decisão foi rápida, já estamos fartos de asfalto e sempre conhecemos mais um
Parque Natural.
Acabámos por ter sorte porque mesmo com o arsénico, a fauna e
as paisagens do parque são muito interessantes, o nome Pão de Açúcar vem de uma
ilha numa das baías do parque que tem a forma desse tipo de pão. Já de volta
à Pan-americana hesitamos em meter-nos em mais 350km de ripio para ir a um observatório
celestial que tem o maior espelho do mundo (14m de diâmetro), o guia falava que
apenas eram permitidas visitas em dois dias da semana e por azar nenhum deles
coincidia com o dia em que estávamos, para grande magoa do Rui perdemos o observatório.
O problema da gasolina também não facilita. as bombas são às vezes a 200km umas
das outras e não dá para inventar à ultima hora. Já anteontem tivemos que fazer
uma trasfega para conseguir que o Teles chegasse à bomba.
As variações térmicas aqui são brutais e assim que o sol começa a desaparecer
a maresia e o vento gelado são implacáveis. Por vezes dá preguiça de parar só
para vestir o forro, cerramos os dentes, encolhemos o pescoço, fechamos o casaco
e esperamos que apareça um local bonito para tirar uma fotografia, esvaziar a
bexiga, fumar um cigarro e vestir finalmente o forro. Eu segui este ritual nos
últimos dois dias e como resultado tenho agora uma pequena gripe.
Passamos ao lado de Antofagasta, é de longe o sitio mais feio que vimos até agora,
a cidade está coberta por uma nuvem de pó permanente, o cheiro a químicos é muito
forte e as margens das estradas estão forradas de detritos das minas. O único
ponto interessante da região é a Mano del Desierto poucos quilómetros antes de
Antofagasta, uma escultura gigante de uma mão que imerge da planície desértica.
Finalmente viramos para Leste e poucos quilómetros depois cruzamos o trópico
de Capricórnio, registámos o momento histórico e contribuímos para o monte de
pedras que marca este ponto. Já no ano passado fizemos este ritual no trópico
de câncer no Sahara e esperamos no ano que vem fazer o mesmo quando cruzarmos
o equador. Seguimos directos a Calama, cidade onde queríamos ir ver a maior mina
a céu aberto do mundo, mas parece que para isso teremos que ir de excursão em
autocarro uma manhã inteira e isso já é turismo a mais para nós. Queremos fazer
o roteiro do deserto do Atacama sem repetir pistas por isso escolhemos ir directo
de Calama para o campo de Géisers perto da fronteira com a Bolívia, li no guia
que por este caminho há varias aldeias muito interessantes que permanecem inalteradas
desde que este território pertencia à Bolívia.
Entretanto faltavam 40 minutos para o sol desaparecer e metermo-nos num caminho
de alta montanha (o Géiser está a 4300m de altitude), sem saber o estado da estrada,
nem a distancia certa, de noite, não parece boa ideia. Mas, acabamos por comprar
comida e metermo-nos a caminho. Conseguimos chegar, noite já avançada, à pequena
povoação de Caspañas a 41 ou 65 km do Géiser, segundo as varias informações disponíveis.
Arranjamos dormida numa pequena casa construída de barro e madeira de cacto,
fazemos um piquenique com o que levávamos e cama. A minha gripe piorou consideravelmente,
a cabeça parece que quer explodir, não tenho apetite e não consigo adormecer,
subir do nível do mar até aos 3300 metros de altitude em poucas horas também
não deve ter ajudado.
Às 5h da manha levantamo-nos a muito custo para ir para o campo de Géisers El
Tatio. Era noite escura, não sabíamos como se portariam as motas em altitude,
a do Teles e a Alzira não parecem lá muito bem, mas lá vamos. Começamos a subir
dos 3300 metros a que fica a tal aldeia e tudo corre bem. Ainda de noite temos
que fazer um corta-mato, devemos ter descoberto o pior caminho possível para
o El Tatio, não existem indicações, a pista desapareceu, está um frio cortante
e apenas temos um waypoint aproximado da localização dos Géisers.Finalmente
chegamos e somos os primeiros. Aliás, se algum vez
fizerem isto não acreditem na conversa dos guias que
dizem que tem que lá estar ao alvorecer do dia. Eram
quase 10 da manhã, já o sol ia alto e o espectáculo
dos Géiser continuava praticamente igual. Dali vamos
para São Pedro de Atacama, são mais de 200 quilómetros
por uma descida com paisagens deslumbrantes. Mesmo
com a persistente dor de cabeça não posso deixar de
reconhecer que o Atacama me surpreendeu, depois de
conhecer algumas paisagens do Sahara pensei que o Atacama
fosse um deserto mais “modesto”.
As paisagens são absolutamente deslumbrantes. As cores
da terra e das rochas, as formas do relevo as cambiantes
que a luz cria, são um espectáculo lindíssimo. Na descida
do Géiser para S. Pedro de Atacama demoramos umas 4
horas por causa das paragens para tirar fotografias
aos picos da cordilheira, às rochas, aos desfiladeiros,
aos montes, às alpacas, aos oásis… A região é característica
pelos seus vulcões e géisers e as águas ricas em minerais
dão um colorido magnifico aos poucos rios da região.
De madrugada, lá em cima, o frio era terrível, à medida
que descemos, o calor começa a apertar e temos que
nos ir despindo até chegar a S. Pedro onde devem estar
uns 40 graus. Mas ao menos podemos respirar. A 4300
metros, qualquer esforço um pouco maior deixa-nos a
arfar e meio tontos, principalmente os que têm gripe.
São Pedro de Atacama é uma pequena vila perdida no
meio do deserto, tornou-se nos anos 80 um paraíso hippie
e hoje mantêm ainda um pouco dessa energia.
Ruas estreitas
de terra vermelha e casinhas baixas de barro desembocam na praça
principal onde a modesta Igreja secular se destaca como ex-libris desta
cidade saída de um filme de índios e cowboys. Também se tornou num destino turístico
muito procurado por servir de base à exploração das várias atracções do deserto
do Atacama, as hosterias são caras e encaixotam diariamente turistas em pequenos
autocarros que percorrem o Salar, o Vale da Lua, os Géisers, os vulcões e as
lagoas coloridas repletas de flamingos. A minha dor de cabeça não me dá descanso,
engulo mais umas aspirinas e tento dormir uma “siesta” enquanto os meus companheiros
de viagem exploram a cidade.
Antes de sair de São Pedro de Atacama para a Argentina
é necessário passar pela aduana para registar a nossa
saída e carimbar os passaportes, a fronteira efectivamente
fica ainda a 200 kms mas a 4600 metros de altitude
por isso as aduanas ficam nas cidades mais próximas
da fronteira a uns mais respiráveis 3000 metros de
altitude.
Fronteira despachada saímos ao meio dia de São Pedro
de Atacama depois uma visita ao Vale da Lua, um local
impressionante que realmente parece de outro mundo.
O que torna este vale especial é que em toda a sua
extensão brota gema de sal do chão forrando tudo de
branco, as formações gigantes
de corais fossilizados
dão ainda mais dramatismo ao cenário e as enormes dunas
de areia vermelha transportam-nos realmente para outro
planeta. A Alzira acordou novamente mal disposta e
ficou tão impressionada com o vale da Lua que resolveu
aliviar o peso do seu disco de travão traseiro. Assunto resolvido (disco na mala) e segue viagem que
temos uma cordilheira para atravessar! Foi viagem de pouca dura, poucos quilómetros
e pouca altitude depois (3200mt) a Alzira volta a pedir a nossa atenção. Desta
vez não passa dos 60 e está com gazes estranhos, metade das entranhas da Alzira
já estão nas malas por
isso rapidamente chegamos à conclusão que devem ser a
velas sujas... mais um assunto resolvido! Segue! E seguimos... pelo ponto mais
alto da viagem, tecnicamente falando claro, exactamente 4868 metros registados
no GPS!!
Passamos por vários salares coloridos e por uma tabuleta
que anuncia a Bolivia a apenas 500 metros. O Vulcão
Lincancabur com os seus 6200 metros de altitude, um
perfeito cone com neve no topo, marca a fronteira entre
o Chile e a Bolívia.
Passamos por vários vulcões e
lagoas coloridas e finalmente chegamos ao passo da
Cordilheira para a Argentina. O passo de Jama é só
isso mesmo um passo, uma tabuleta que diz que o Chile
termina e a Argentina começa ali! A Argentina construiu
recentemente uma aduana a poucos quilómetros do passo
de Jama. As fronteiras até agora tem sido muito tranquilas
e fáceis de ultrapassar, mas desta
vez encalhamos com
um daqueles guardas super meticulosos que insiste em
não nos passar o papel da importação temporária das
motos. Segundo a sua argumentação as motos sendo de
matricula brasileira não necessitam de importação temporária
pois existe um acordo de livre circulação entre o Brasil
e a Argentina. Nós em Buenos Aires recebemos uma ensaboadela
da chefe da Alfandega para exigirmos sempre esse documento
pois poderíamos ser impossibilitados de sair do pais
sem ele. Cumprimos essas recomendações em todas as
fronteiras mas este guarda recusava-se terminantemente
a passar tal documento. Tentámos de tudo, pedir educadamente,
explicar que poderíamos ter problemas em Iguaçu e que
mesmo não sendo obrigatório seria para nós muito mais
tranquilo levar a importação temporária. Nada! Às tantas
o clima azedou e pedimos para falar com o chefe da
aduana. Ele ironicamente respondeu que o chefe estava
a 300 kms de distancia.
Pedimos então para ele se identificar
e passar um documento explicando porque razão não passava
a importação temporária. Ele ficou furioso, disse que
se identificaria e iria tirar fotocópias da lei de
importação mas que iria investigar minuciosamente as
nossas motos e que se encontra-se algo irregular teríamos
de voltar São Pedro e entrar na Argentina por outra
fronteira. Esta volta iria comprometer totalmente o
nosso calendário e implicaria mais 1500 kms de estrada
a mais de 4000 metros de altitude, engolimos em seco
e aguardámos a inspecção. Duas horas de volta dos nossos
documentos e das motos até ele renitentemente nos dar
ordem de avançar. Ufa!
Depois do passo de Jama estávamos na esperança de começar
a descer mas nada disso, rodamos 150kms a 4000 metros
e depois mais 150km a 3500mts.... A minha
cabeça só não explodiu porque tinha o capacete, mas a ajuda na bomba de gasolina
de Susques veio a calhar. Um chá de coca e umas folhas da mesma planta medicinal
para mascar aliviaram bastante a dor e a descida foi bem mais tranquila e agradável.
Com os reparos da Alzira e a confusão na fronteira perdemos algum tempo e o sol
resolve ir embora no ultimo salar, a verdadeira descida começa já com a noite
escura. Os conhecidos "caracoles" em pouco mais de 100 kms levam-nos
dos 3500 metros até aos 1500 metros isto claro contanto com as curvas, sim porque
em linha recta pelo gps fizemos uns 30kms no máximo! Impressionante! Eu ia a
descer todo satisfeito mascando a minha coca já sem dor de cabeça quando passa
por mim o Rui que mesmo só com travões na frente ( o disco de trás ia na mala)
foi a “raspar” todas as curvas, aliás a Alzira vai ficar na historia por ter
sido sem duvida a única Cagiva a atravessar a Cordilheira dos Andes só com travões
na frente. Chegamos finalmente a Jujuy, a primeira cidade do “Chaco” Argentino,
abastecemos as motos e resolvemos dormir por ali mesmo.
MarÇo, 2006
De volta à Argentina
O "Chaco" é chato! Ou nem por isso, nós
é que estamos mal habituados.
Saímos
de Jujuy relativamente cedo, esperava-nos "El
Chaco" uma região plana com temperaturas muito
elevadas e uma recta de 800kms! Depois de ler o relato
do Rodrigo Moraes, um amigo brasileiro, estávamos
preparados. Muita agua, gasolina de reserva e roupas
preparadas e seguimos, seguimos e seguimos até o
Teles furar. Por sorte foi logo depois do almoço
e tínhamos a bomba de gasolina com um compressor
de ar ali ao lado e tudo, sorte de Inshalá! Uma hora
depois seguimos de novo pela paisagem igual e monótona
apenas colorida pelas nuvem de borboletas que teimavam
em vir contra as motos. Estava eu a pensar nas semelhanças
desta paisagem com a savana africana e eis que surge
outro ponto de interesse; A estrada de repente fica
tão esburacada que tem de se andar pelas bermas...
parece que estamos de volta à Guiné onde 95% das "estradas" são
assim, o asfalto serve de separador central e a verdadeira
estrada é nas bermas.
A noite caiu novamente e ainda estamos a 180kms de Corrientes onde tínhamos planeado
dormir, resolvemos dormir aqui mesmo e não arriscar seguir de noite, existem
muitos animais e pessoas nas bermas e os camionistas são meio loucos por isso
mais vale prevenir. Ficamos em P.R Saénz Pena uma cidade pequenina mas muito
movimentada onde já se nota o inicio da floresta tropical que nos espera assim
que chegarmos às imediações do rio Paraguay.
Novo dia e nova incontinência da Alzira, desta vez um dos tubos de gasolina rompeu
com o calor, apesar de ser uma regra de ouro nas viagens de moto parece que é
nossa sina terminar o dia de viagem dirigindo de noite.... chegamos a Puerto
Iguaçu era já noite escura. Passámos directo por Mendoza e Corrientes e desde
então temos vindo a acompanhar o rio Paraguay.
As cataratas da Foz do Iguaçu são avassaladoras. A
cascata conhecida como “A garganta do diabo” é especialmente
impressionante, uma enorme depressão na rocha forma
uma garganta imensa onde o rio se precipita por todos
os lados. Não existem adjectivos para descrever tamanha
beleza, é simplesmente uma das maravilhas do mundo.
Ao contrário do que imaginávamos 80% das cataratas
ficam do lado Argentino, existem passadiços de madeira
que percorrem a floresta
tropical que envolve as
cataratas e que permitem visitar grande parte do
Parque Natural de Iguaçu. O lado Brasileiro tem apenas
uma das margens mas orgulha-se de ter a melhor panorâmica
geral das cataratas. Optámos por ficar no lado Argentino, viajamos num comboio
que nos deixou no meio da selva, caminhamos por cima das cataratas, descemos
parte do rio num bote de rafting, subimos num Unimog..... tudo isso colorido
por milhares de borboletas, jacarés, macacos, tucanos, tartarugas e um sem numero
de aves exóticas... que lugar magnifico!!
No dia seguinte passamos para o Brasil, seguimos a dica do Daniel e ficamos
na melhor pousada da juventude do Brasil, a pousada de Paudimar em Foz do Iguaçu.
A pousada está cheia de backpackers de todas as origens que se distribuem pelo
jardim, piscina e bar.
O ambiente é muito descontraído, o gerente também gosta
de motos e faz um desconto simpático alem de nos oferecer uma caipirinha.
O Rui
já conheceu umas backpakers francesas e está na conversa, o Teles está no bar,
o André escreve o seu diário e eu comemoro o regresso ao Brasil com um mergulho
na piscina. De tarde colocamos as motos numa oficina fazendo um pequena revisão,
enquanto isso tínhamos planeado visitar a maior barragem do mundo e dar um passeio
por Cidade Del Este no Paraguai. Nem uma coisa nem outra, o Paraguai fechou a
fronteira como forma de protesto em relação ao reforço no controle da policia
brasileira ao contrabando oriundo daquela cidade, só paraguaio entra e saí, todos
os outros não podem sair nem entrar e isso durante 2 ou 3 dias até decidirem
abrir de novo a fronteira. Na semana passada alguns turistas ficaram retidos
no Paraguai 3 dias por isso resolvemos não arriscar. A Barragem só tem passeios
de autocarro, com guia e programinha de meio dia e isso não é para nós, segue
viagem.
MarÇo, 2006
O Rio de Janeiro continua lindo!
O caminho está bom e a estrada é devorada com
algum facilidade, o ponto mais alto do dia, ou
melhor da noite, foi a dormida. Ficámos num típico
Motel brasileiro de beira de estrada! Com direito
a cama redonda, espelho no tecto, som ambiente
e mais uma série de adereços interessantes. Não
sei o que aconteceu com o Rui e o André que ficaram
juntos num destes quartos, mas lá que acordaram
muito sorridentes...lá isso acordaram. Ontem
foi mais um dia a devorar estrada, a DR do Teles
tem uma pequena fuga de óleo no radiador e tivemos
de abrandar um pouco e tentar uma reparação com
epoxy. A fuga diminuiu mas mesmo assim continuou
a cair óleo nos pés do Teles, com isso
chegamos
a São Paulo eram umas 8 da noite. Fomos recebidos
pela família Ventura, a família Chapolin e a família
Etienne numa churrascaria daquelas de cair para
o lado de tanta comida, mas soube bem..... soube
muito bem!!
Ficamos na conversa contando as aventuras até tarde e depois atravessamos São
Paulo até a casa do Silvio onde dormimos essa noite. De manhã tentámos com a
ajuda de um mecânico amigo soldar o radiador de óleo do Teles mas sem grande
sucesso,
o Silvio ao ver a cara desanimada do Teles disponibilizou a sua Varadero
novinha para que todos podéssemos continuar viagem até ao Rio de Janeiro. O Chapolin
é outro dos grandes amigos que tenho no Brasil e vai acompanhar o resto da viagem
na sua DR.
Saímos já tarde da casa do Silvio, guiados pelo Chapolin seguimos pela Via Ayrton
Senna para evitar o transito pesado da conhecida via Dutra. Chegámos à Serra
das Araras já com o pôr do Sol e atravessámos o centro do Rio já com noite escura,
o objectivo é chegar rápido à Região dos Lagos por isso passamos directo para
a ponte na direcção de Niterói, vemos o Rio na volta. Nos preparativos para a
viagem acabei por me esquecer de trazer a chave da casa de Arraial, problema
prontamente resolvido pelo Chapolin com um telefonema para o Alessandro Meau.
Alô Alessandro, dá para ficar na sua casa de Cabo Frio esta noite??? Claro, ligo
já para o caseiro e ele dá as chaves para vocês..”
O Brasil é assim, mais do que paisagens magnificas, praias soberbas e calor tropical
são as pessoas que tornam este país inesquecível. A amizade aqui é servida em
quantidade industrial. Conheci o Alessandro e a Gabi na ultima vez que estive
por cá, juntos com a Verbena, o André, a Milene, o Silvio e o Chapolin percorremos
todas as prainhas de Arraial, Cabo Frio e Búzios. Foi cumplicidade à primeira
vista e desde então defino este grupinho como a minha família brasileira.
Antes mesmo de descarregar bagagem fomos direito a um restaurante japonês
velho conhecido, estamos no ponto mais a norte desta viagem e importa comemorar.
O Teles a principio ainda tem alguma reserva acerca das iguarias japonesas mas
não demorou muito a ficar fã do Sushi e do Saké. Comemorar é agora a palavra
de ordem, estamos no final da viagem e importa afugentar a tristeza que acompanha
todos os finais de viagem. Afogámos essa tristeza com uns mergulhos nas aguas
da Prainha de Arraial, a lua foi a nossa única espectadora na noite que marca
o principio do fim da viagem. Tinha reservado o dia seguinte para resolver alguns
assuntos pessoais mas ainda deu tempo para ficar um pouco na praia dando uns
mergulhos enquanto esperávamos pelo camarão frito ou pelo peixinho acabadinho
de pescar, pela cerveja gelada não era preciso esperar, uma geleira cheia debaixo
da mesa garantia a hidratação necessária neste calor.
Fomos ver o pôr do Sol ao Pontal, a ponta da península de Arraial do Cabo onde
enquanto o sol se põe no mar a Oeste, a lua nasce no mar a Este, um espectáculo
maravilhoso!
À noite fomos passear por Cabo Frio e resolvemos jantar uma bela picanha no restaurante
do Zé. A picanha estava uma delicia e o Rui descobriu outra iguaria, o palmito!!
Devorou duas saladas sozinho, está a redimir-se dos pecados mortais que cometeu
durante toda a viagem, ele é o vegetariano mais apreciador de churrasco que eu
conheço.
Tínhamos previsto sair de Cabo Frio cedinho, almoçar no Rio, ver as vistas e
seguir para Paraty passando por Angra dos Reis. O problema é que no dia anterior
antes do jantar eu esqueci o capacete numa
loja e só dei conta do esquecimento
quando precisei dele para regressar a casa já depois da meia noite! Obviamente
a loja já estava fechada e estivemos de esperar hoje pelas 11 horas para recuperar
o capacete. Com este esquecimento comprometi a partida cedo para o Rio, já que
não temos de acordar cedo decidimos partir para a "balada" e aproveitar
a noite. Começamos na Rua do Canal e ao ritmo que os lugares iam fechando nós
íamos mudando de esplanada, conhecemos gente simpática, fizemos mais amigos e
foi assim toda a noite até sermos presenteados com um nascer do Sol magnifico,
desfrutado condignamente “verdascando” pelas dunas brancas de Cabo Frio.

Chegámos já de tarde ao Rio, passámos o centro, Botafogo, o Pão de Açúcar, Copacabana
e instalamos acampamento em Ipanema. Um cocos gelados num quiosque bem
no calçadão e está cumprido o ultimo objectivo da viagem! Desfrutámos o momento,
apreciamos as vistas e descansámos enquanto esperávamos o contacto do Alessandro.
Ficámos de novo na casa do dele e da Gabi, a diferença agora é que não estamos
na casa de férias, estamos mesmo na casa deles no Rio. Fica entre a Barra e o
Recreio do Bandeirantes e dá dó ver a vista terrível que eles tem deste 22º andar,
Mar, mar e mais mar.
Agora estamos a jantar com o eles e com a Pyowany na Barra,
fomos recebidos mais uma vez de uma forma soberba, acho que por mais que eu receba
amigos em Lisboa, nunca vou conseguir retribuir esta hospitalidade. Visitar a
cidade maravilhosa
é sempre uma experiência agradável, mesmo com as noticias
recentes da "guerra" exercito/traficantes esta cidade será sempre um
dos lugares mais bonitos do mundo. Estávamos a jantar e no Telejornal só falavam
da quantidade de militares nas ruas do Rio, à pouco passámos na entrada da Favela
da Rocinha e pudemos comprovar que os pára-quedistas não estão ali a brincar.
Vários carros de combate centenas de militares equipados até aos dentes e dois
helicópteros Puma a sobrevoar a área.... parece uma zona de guerra, mas é só
virar a esquina passar um túnel e de novo uma praia numa baia magnifica nos leva
para outro mundo, o Rio é assim.
Ultimo dia no Brasil, não há como esconder a tristeza. Tem sido magnifico ter
a companhia do Chapolin nestes dias, a nossa cumplicidade já era de esperar,
mas o surpreendente
foi a sua integração com o resto do grupo, ao fim de umas
horas parecia que viajávamos juntos à meses. No regresso a São Paulo fomos mandados
parar por um posto de policia, a culpa foi minha que nessa altura seguia na frente.
O posto era no final de uma curva e os sinais que avisavam dos limites de velocidade
foram tapados por camiões que circulavam devagar na faixa da direita, resultado;
passamos a 30 centímetros dos policias a 130kmh... Tudo indicava que iríamos
ser multados, mas muita conversa, futebol, motos e depois de se certificarem
que não existiam argentinos no grupo os policias mandaram-nos seguir.
Já perto
de São Paulo a Varadero do Teles deitou fora um pedaço do pneu traseiro, a tela
ficou exposta e não inspirava muita confiança por isso optámos por rodar bem
devagar até chegar. A Verbena esperava por nós e nos guiou de volta a sua casa
onde o André nos recebeu, o circulo fechou, estamos de volta ao ponto de partida!
O Rolf chegou entretanto mas tem compromissos e não pode ficar connosco. Nós
também não estamos com muito tempo, um banho rápido e de volta ao centro de São
Paulo para a festa no Desmobuteco. Padu e companhia esperavam por nós para a
festa de despedida,
desta vez não há banda mas há churrasquinho e muita caipirinha.
O André Verbeno preparou um CD com algumas fotos, o Chapolin também trouxe as
suas fotos e na companhia de vários amigos membros da Big Trail e do Desmogrupo
vemos pela primeira vez as imagens da viagem.
A Verbena e a Cris aproveitaram
o momento para organizar uma "balada" e sem ninguém perceber muito
bem como, estamos a caminho da inauguração de um bar num bairro da moda de São
Paulo. Somos mais uma vez bem recebidos (isto parece cliché mas é a pura realidade)
temos uma mesa para todos e mais caipirinha, mais festa para esquecer que amanhã
estamos de volta à vida real.
Hoje acordamos com um sabor amargo na boca, deve ter a ver com a caipirinha de
ontem... ou com a proximidade do mundo real. O café da manhã é da responsabilidade
da mãe da Verbena, e que pequeno almoço.... refiro apenas dois detalhes para
não me alargar muito..... manteiga caseira e cuscuz feito na hora, uma delicia!
O resto da manhã foi gasto a desmontar as motos e a arrumar as malas. O almoço
foi no mesmo restaurante onde almoçamos no dia em que chegámos ao Brasil, exactamente
à 46 dias, e a (in)digestão foi feita no transito de São Paulo até ao Aeroporto
onde chegámos a 5 minutos de fechar o check in.
Quando o assistente da TAP viu as nossas malas ia tendo uma sincope, fartou-se
de reclamar, que tínhamos peso a mais e que eram muitos volumes, nós já calejados
do embarquem em Lisboa
sacámos das cintas e dos elásticos das motos e amarrámos
as malas de duas em duas. “Pronto, agora só temos dois volumes por passageiro!”
O homem ficou furioso, esbracejava e resmungava que se algo se perde-se eles
não seriam responsáveis, o nosso ar despreocupado deve ter resultado porque 11
horas depois nós e toda a bagagem desembarcámos em Lisboa são e salvos.
Esperavam por nós as respectivas famílias, o Carlos Martins o Amorim e o Casimiro.
Voltámos à vida real, ao frio, à chuva e amanhã já tenho de ir trabalhar…. faltam
15 meses e 29 dias para a próxima!
Fevereiro, 2006
Inicio de viagem diferente
Depois de quase tudo pronto para enviar as motos num contentor
para Buenos Aires tudo foi alterado nos últimos meses. Afinal vamos
utilizar as motas de amigos no Brasil. O André Etienne, o Silvio
Ventura, a Verbena e o Ralf são amigos que conheci no via net num
fórum sobre BigTrails do Brasil. Contactaram-me via e-mail no sentido
de ajudar na aquisição ou aluguer de motos para uma viajem que
planeavam realizar na Europa no verão de 2006. Na ultima viagem
ao Brasil conheci-os pessoalmente e falei deste projecto. Surgiu
aí a ideia da permuta de motos, nós utilizamos as motos deles na
próxima etapa Rio de Janeiro - Ushuaia e eles utilizarão as nossas
motos quando vierem viajar para a Europa. Simples não é?
Não!
As nossas motas já estão configuradas para estas viagens e já lhes conhecemos
as manhas, as de lá são uma incógnita. As Suzuki DR850 nunca foram muito comuns
em Portugal, as Cagiva Elephant 900 são mesmo raras entre nós, eu tenho sorte,
vou numa BMW igualzinha à minha mas também não é por isso que tenho menos trabalho.
É preciso inventar suportes de malas para as Dr, fazer tomadas de energia para
os Gps, e transportar tudo isso para lá! Resolvemos jogar pelo seguro e enviar
os pneus Continental TKC80 por correio, sai caro mas vale a pena pelas garantias
de segurança e durabilidade que eles nos oferecem. O Amorim tratou de criar sistemas
de energia para as quarto motas, o meu permite alimentar a câmera de filmar,
carregar a maquina fotográfica e ainda alimenta o GPS, tudo ao mesmo tempo, um
luxo!
Esta ultima semana tem sido estranha, vou à garagem todas as noites e fico meio
baralhado olhando as bagagens já prontas, tiro, reponho, arrumo… normalmente
estaria neste momento já com tudo montado na moto, mas desta vez a moto está
a 10.000kms de distancia. É uma sensação difícil de digerir, por um lado está
tudo pronto, certinho, organizado, por outro lado a noção que basta qualquer
pequeno contratempo para comprometer tudo...uma mala extraviada é o suficiente. Até
agora tem tudo corrido muito bem, o Silvio recebeu os pneus Continental que eu
enviei por correio, os suportes das malas de alumínio estão prontos e têm óptimo
aspecto,
o
André e a Verbena já trataram de toda a documentação nos consulados dos países
a visitar, o Espenica fez uma recolha de mapas incrível, as motas estão revistas...
apesar de tudo aparentemente tão bem organizado o aperto no estômago continua.
O primeiro dia desta viagem teve 36 horas.... pelo menos para
nós 4. Chegámos mais mortos que vivos a São Paulo depois de 11
horas de voo directo e 1 de ligação. No aeroporto de Madrid o jantar
teve de ser inventado, todos os restaurantes à excepção de um estavam
fechados e como é obvio esse um estava com uma fila em que em vez
de jantar tomaríamos o pequeno almoço. Há que improvisar e umas
bolachinhas de àgua e sal, uma palete de Jamon Serrano e um Toblerone
da loja de souvenirs resolveram a questão. Já em São Paulo o André
Etienne estava à nossa espera no aeroporto e rapidamente fomos
para… uma churrascaria ora pois... que isto das motos pode esperar!
Já com a companhia do Silvio e da Verbena passamos toda a tarde
na garagem/oficina/concessionário/bar do André a preparar as motos,
monta mala, tira mala, martela mala, aperta, desaperta e pelas
6 da tarde tínhamos tudo orientado. Hora de..... FESTA ora pois....
que isto do descanso pode esperar (onde é que já li isto...)
O
Desmogrupo (um grupo de masoquistas donos de Cagivas elephant)
preparou uma desmofesta, no desmobuteco, com a desmobanda e desmochurrasquinho
e tudo.... querem acabar com os portugas!!!! Uma recepção inesquecível,
a generosidade dos amigos que encontrámos por cá e que nos receberam
de braços abertos é impossível de explicar por palavras, sentimo-nos
em casa, totalmente em casa... quem tem amigos destes vai até ao
fim do mundo...
Fevereiro, 2006
O Brasil
O dia foi de prólogo... ambientação a tudo, estrada, transito,
camiões, calor, e claro as motos diferentes...
Saímos tarde, e
o primeiro trecho tem muitos camiões, a medo vamos devagarinho,
com todas as precauções até ao almoço. Um “boteco” de camionista
de beira de estrada com buffet “Coma o que puder por 6 reais” (+
ou - 2 euros) pareceu bem e soube ainda melhor. Seguimos por mais
um deposito, 300 kms e nova paragem... desta vez a ambientação
passa por uns pasteis de queijo, regados com caldo de cana e açaí,
para sobremesa uma cocada! Seguimos por um vale muito bonito que
desce a serra de Curitiba até à costa, depois saímos da estrada
principal e rumámos já com o pôr do Sol a Jaraguá do Sul para ir
ver a Milene.
Ela, especial como sempre, adivinhou a nossa vinda
e nos obrigou, literalmente, a ficar em sua casa. Um serão delicioso
no restaurante de sua irmã teve depois continuidade numa gostosa
conversa no relvado do seu jardim sobe um céu estrelado e uma temperatura
tão agradável que acabei dormindo... no relvado mesmo.
Estivemos com a Milene até perto da hora de almoço, gostaríamos de ficar com
ela mais uns dias mas Ushuaia fica longe e à que continuar. Fomos a uma oficina
Suzuki de um amigo dela para uma afinação básica das motos e seguimos viagem,
passámos por Pomerode conhecida como a cidade mais alemã do Brasil, com igrejas
e casas tipicamente germânicas, não fosse vegetação tropical e o calor húmido
e mais parecia que passeamos pelo vale do Reno. Almoçámos em Blumenau e seguimos
novamente para a costa, primeiro por Florianopolis, Balneário Camboriu e depois
por Porto Belo e Bombinhas. Aqui aconteceu o drama do dia, uma autentica catástrofe
nos nossos planos traçados ao milímetro... segundo os quais deveríamos estar
agora 1000kms mais a Sul. Encontrámos uma praia idílica em que é possível montar
as tendas literalmente a 3 metros de uma agua com 28º.... foi impossível continuar
a viagem, tínhamos de dormir aqui!
Saímos de Bombinhas logo cedo na direcção de Porto Alegre, 300 kms depois saímos
da interminável BR 101, que liga todo o Brasil de Norte a Sul pela costa. Em
plena fronteira entre os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul encontrámos
a entrada para a primeira travessia todo-o-terreno prevista no roteiro. Optámos
por este roteiro para conhecer de perto a famosa serra gaúcha e fugir da monotonia
da via rápida. Atravessámos demoradamente o Parque Natural dos Canyons e o Parque
Natural do Intambezinho e terminámos o dia em beleza alojados no camping da família
Melo junto ao Parque Natural do Caracol em Canela.
O dia seguinte estava previsto
para percorrer todos os recantos desta região mas a TPM da Alzira (que é como
quem diz o motor de arranque da Cagiva) resolveu não colaborar e ocupou praticamente
todo o nosso dia. Só parámos o tratamento da Alzira quando as ferramentas disponíveis
não eram suficientes para a reparação. Mesmo assim deu para conhecer Canela,
Gramado e ficar maravilhados com a Cascata do Caracol.
A região Gaúcha é fértil
em motivos de interesse mas os seus restaurantes merecem um destaque especial,
durante um rodízio típico o Rui abandonou oficialmente a sua dieta vegetariana
e entregou-se à tentadora variedade de carnes no churrasco. Para a ajudar à digestão
decidimos visitar uma inauguração de um bar bem ao lado do
restaurante, aqui
a variedade é também muito exuberante mas noutro sentido. Ontem, depois de um
típico café colonial (uma variedade incrível de petiscos regionais) descemos
a Serra e encontrámos em Nova Hamburgo a oficina do Reni que o Sr. Melo nos havia
recomendado. O Reni e a sua equipa são super eficientes, acolheram-nos e repararam
o motor de arranque o mais rápido que conseguiram. O André, a Verbena, o Rolf
e o Raul vieram ao nosso encontro juntos rumámos a Pelotas. Ficamos numa pequena
cidade a poucos quilómetros do objectivo do dia mas no caminho certo e com os
problemas resolvidos! 
Fevereiro, 2006
Uruguai, o Mar de Prata e Buenos Aires.
Hoje atravessamos todo o Uruguai junto à costa, e subimos o Rio
Prata até Colónia do Sacramento, nada mau, uns 890 kms por prados
intermináveis num país muito belo com estradas de fazer inveja
a muitos países que gostam de dizer que são do primeiro mundo.
Montevideu é uma cidade muito bonita, limpa e colorida mas o melhor
deste pais são as paisagens rurais, em que os prados verdes salpicados
de vacas e cavalos parecem parados no tempo fazendo lembrar aquelas
comunidades católicas ultra conservadoras do interior dos Estados
Unidos. No interior do país a locomoção animal é ainda bastante
utilizada e a quantidade de fazendas de gado devem fornecer muita
da carne que nos chega aos supermercados de Lisboa como sendo da
Argentina.
O Parque automóvel é também uma curiosidade, Buicks
e Chevys dos anos 60 dão um colorido muito pitoresco às poucas
estações de serviço. Agora estamos em Colónia del Sacramento, uma
cidade fundada por portugueses no sec. XVII e orgulhosamente preservada
pelos Uruguaios. A cidade tem um forte português e algumas ruas
que ainda preservam as placas em azulejo tão lusitanas. É um ponto
turístico muito concorrido, tanto pelo centro histórico como pela
sua posição estratégica bem em frente à cosmopolita Buenos Aires
do outro lado do Mar da Prata. Amanha apanhamos o ferry que liga
estas duas cidade, é a travessia mais curta possível desta enorme
massa de agua que Fernão de Magalhães pensou ter ligação para o
Pacifico.
O dia reservado para Buenos Aires acabou por ser passado na companhia do Javier
e da Sandra, o casal "portenho" que gere a DakarMotos (www.dakarmotos.com),
um poiso obrigatório para quem viaja por estas bandas em duas rodas. Já tínhamos
planeado a passagem pela sua casa/oficina/albergaria/camping mas a vontade transformou-se
em necessidade depois da embraiagem da GS ter anunciado a sua morte ainda no
sul do Brasil.
Como conhecia o Javier desde os preparativos iniciais para
o transporte das motos para Buenos Aires, achei que ele estaria mais apto a cuidar
da minha embraiagem cansada do que as oficinas do Brasil. Para além disso ele
conseguiu um disco de embraiagem por 250 USD, bem mais em conta que os 1500USD
que me tinham pedido na BMW de Porto Alegre.
Acabei por não comprar a embraiagem porque o Ralf trazia uma de substituição
e enquanto
ele e toda a restante comitiva foram conhecer a cidade eu o Javier
e o Teles passamos a tarde inteira a desmontar meia mota para substituir o disco.
Ao contrario do que possam pensar foi uma óptima tarde, o Javier e a Sandra são
magníficos, hospitaleiros, prestativos e não escondiam a grande satisfação de
estar a receber os primeiros portugueses. A Dakarmotos é uma oficina modesta
mas muito aconchegante, tem ferramentas básicas mas muito boa vontade e espírito
Inshalá, tem ainda uma pequena camarata e um jardim onde é possível acampar.
A hospitalidade e simpatia da Sandra e do Javier são famosos entre os motociclistas
viajantes, ficar na DakarMotos é garantida de conhecer pessoas interessantes,
a Katja e o Martin por exemplo estão acampados no jardim e percorrem a América
do Sul à 21 meses nas suas Africa Twin, no beliche do lado está o Simon
que à 3 semanas faz calmamente uma revisão completa à sua MZ depois de
7 meses na Patagónia…
Fevereiro, 2006
A Patagónia
No dia seguinte seguimos até Bahia Blanca e ontem chegamos
ao santuário de vida selvagem chamado Península Valdez. Montámos
base em Puerto Pirâmides, uma pacata vila de pescadores que
se tornou numa pacata vila de turismo ecológico e hoje reservamos
o dia para contornar esta península classificada como Património
Natural da Humanidade. Realmente a quantidade de vida selvagem
é impressionante, vimos guanacos, pinguins, focas, elefantes
marinhos, lobos marinhos e uma infinidade de passarocos, mas
as orcas não se mostraram...é aqui nestas praias geladas que
são filmados aqueles
documentários onde as baleias assassinas vêm
à praia caçar filhotes de foca. Fizemos no total uns
350kms de ripio, umas pistas largas de gravilha onde se roda
numa media de 100/110 quilómetros hora....
com alguns sustos
pelo meio. Saímos de Puerto Pirâmides e iniciamos a travessia
da Patagónia, a nossa rota prevista implicava um desvio para
Oeste na direcção da Cordilheira Andina mas optámos por continuar
a seguir para Sul junto ao Atlântico. As distancias aqui são
impressionantes e assim jogamos pelo seguro e poupamos algum
tempo para desfrutar com mais calma as belezas do Sul. Dormimos
a 15 kms de Tecka numa aldeia que mais parece do velho oeste,
pickups e carros americanos dos anos 60 continuam a rolar sem
problemas, a população é maioritariamente indígena (pré colonial)
e realmente tem um aspecto muito semelhante aos esquimós/mongóis.
Ao contrário dos portugueses no Brasil, os espanhóis não se
misturaram com os nativos e isso é bem visível na fisionomia
dos locais.
É difícil escrever sobre a Patagónia, não há como a reproduzir em fotos, a descrever
em palavras, há que ir lá para a sentir. Um imenso horizonte, milhares de quilómetros
de planícies, um céu inacreditável, um vento gelado constante e um pôr do sol
que dura 2 horas. Durante um desses espectáculos de fim de tarde chegamos à nossa
próxima paragem, Puerto San Julian.
Esta
pequena cidade está localizada numa agradável baía e tem a particularidade de
ter sido escolhida por nomes como Magalhães
e Drake para restabelecer forças antes de rumar ainda mais a Sul. Devo confessar
que este é um local que tinha muita vontade de conhecer,
sempre fui um apaixonado
pelas aventuras dos marinheiros portugueses e numa das ultimas visitas ao Museu
da Marinha descobri um livro que relata a primeira viagem à volta do Mundo de
Fernão de Magalhães. Este livro compila vários diários de marinheiros que acompanharam
Magalhães na sua odisseia mas as descrições minuciosas de Pigaffeta, um marinheiro
genovês, são incrivelmente precisas mesmo actualmente. É certo que as galinhas
difíceis de depenar e com sabor a peixe se chamam actualmente pinguins e que
as burras de pescoço longo que dão leite, carne e pele boa são conhecidos também
como guanacos, mas isso são pequenos pormenores.
Numa placa junto da baía pode-se ler: “Aqui nasceu a Patagónia”, foi aqui que
o navegador português viu pela primeira vez os nativos locais, eram muito altos
vestiam-se com peles de animais que também utilizavam para fazer uma espécie
de botas, a tripulação chamou estes gigantes de pés grandes de patagãos e daí
o nome Patagónia. As tripulações de Magalhães e de Drake passaram 6 meses nesta
baía a recolher viveres e a esperar pelo
fim do Inverno antes de rumar mais a
Sul. Nós temos menos tempo, apenas um dia que gastámos da melhor forma possível;
um passeio de barco a uma pinguinera numa ilha perto, um regresso pela baía acompanhados
de perto por golfinhos brincalhões e uma visita à replica da nau de Magalhães
“Vitoria” ajudaram a restabelecer força para enfrentar mais umas centenas de
quilómetros pela Patagónia Argentina. Ainda antes de sair o Teles perguntou ao Magalhaes em pessoa qual o melhor caminho para o Fim do Mundo.
A sul desta agradável baía a paisagem é forrada por inúmeros poços de petróleo,
esta região é muito rica neste produto e graças a isso à quase 3000 quilómetros
que andamos a atestar os depósitos das motos com gasolina a 40 cêntimos o litro.
É certo que nos primeiros quilómetros não deixa de ser uma visão diferente e
até pitoresca ver as bombas coloridas que puxam o petróleo das profundezas, mas
depois de algumas horas a coisa fica um bocadinho monótona.
MarÇo, 2006
No Fim do Mundo
Antes de chegar a mais um dos marcos desta viagem, o Estreito
de Magalhães, é necessário sair da Argentina e entrar
no Chile. A fronteira é fácil de passar, a única coisa a
ter em atenção é ultrapassar todos os autocarros de turismo
antes da fronteira senão em vez de 20 minutos gastamos 2
horas. Ainda pensámos em dormir em Rio Gallegos a ultima
cidade Argentina antes do estreito, mas a cidade é feia e
ainda tínhamos algumas horas de dia para rodar.
A travessia do estreito foi uma experiência radical, é certo que o local tem
já uma mística especial, mas o mar encrespado e o vento forte deram ainda mais
mística ao momento. Estou eu na proa do ferry a imaginar aqueles marinheiro loucos
lutando com as velas das suas frágeis cascas de noz por estes mares revoltos
quando uma onda gelada me acorda bem a tempo de ir a correr para segurar a GS
antes que ela se deite no chão de tão enjoada.
A “Tierra del Fuego” também foi baptizada pelos marinheiros de Magalhães. Segundo
as descrições de
Pigaffeta enquanto navegavam no estreito observaram muitas fogueiras
nas margens, os capitães para acalmarem as supersticiosas tripulações diziam
que eram os simpáticos patagãos que lhes indicavam o caminho mais seguro. Na
realidade os “fueguinos”, como mais tarde vieram a ser conhecidos os nativos
desta ilha, não dominavam a criação do fogo e por isso mantinham sempre as suas
fogueiras acesas. Talvez por isso ou talvez não o facto é que não se vislumbra
nenhuma arvore na região, apenas pequenas casas construídas em chapa ondulada
pintadas com cores vivas quebram a mancha verde da erva rasteira que balança
com o vento forte vindo do Atlântico.
Dormimos numa "Estancia" típica desta região construída por uma família
inglesa que colonizou estas terra no sec. XVIII para explorar a criação de ovelhas.
O Teles quebrou a corrente a 15 kms da “Estancia” e só perto da meia noite conseguimos
resgatá-lo, já tinha a sua tenda meio montada e preparava-se para dormir. Os
quartos aqui são caros, 25 dólares por cabeça, mas a lareira a estalar e a beleza
da “Estancia” minuciosamente preservada com mobília original dão um charme que
merece a despesa extra. Conhecemos 2 brasileiros que regressam de Ushuaia com
as suas BMW 1200GS, falam que a pista principal está muito esburacada e os camiões
e autocarros são muitos e perigosos, as marcas das pedradas nas GS comprovam
isso mesmo.
Pouco depois da “Estancia” o asfalto termina, parece que as temperaturas extremas
não são muito amigas do asfalto e 90% das estradas da Tierra Del Fuego são em
terra batida.
Optámos por seguir por uma pequena pista que atravessa esta ilha
pelo interior em vez de ir pela estrada principal, assim evitamos o vento forte,
as pedradas dos camiões e conhecemos zonas supostamente mais preservadas. Acertámos
com a escolha, foram mais de 200 quilómetros por vales verdejantes onde apenas
alguns guanacos nos fizeram companhia. Na terra de ninguém entre o Chile e a
fronteira com a Argentina reparei que os campos são minados mas ao contrário
da Mauritânia são muito bem sinalizados. Parece que estes vizinhos têm ainda
algumas questões por resolver neste fim de mundo, o Chilenos para chegarem às
suas cidades mais austrais tem de atravessar a Patagónia Argentina, por seu lado
os Argentinos da Tierra del fuego tem de atravessar o Chile para chegar aos seus
domínios mais a Sul.
Eram perto das 10 da noite quando chegamos a Ushuaia. Estes dois
dias foram muito intensos, preenchidos com momentos fortes. A
travessia do Estreito de Magalhães, a entrada na Tierra del Fuego
e a chegada a Ushuaia foram emoções a mais em tão pouco tempo.
Via SMS partilhámos o momento com os amigos que ficaram em Lisboa
e procurámos um hotel. Terminámos o dia comemorando a chegada
ao objectivo da viagem com uma deliciosa “santoja” (uma espécie
de Santola gigante conhecida no Alasca como King Crab) e muito
“Pisco”. Hoje reservamos o dia para visitar Ushuaia e o Parque
Nacional da Tierra del Fuego. 
Tudo aqui é avassalador, começa pela chegada a cidade, depois de dias e dias de planícies surge na nossa frente uma cordilheira com picos neva dos. Os forros gore-tex, polares e afins estão todos vestidos, a temperatura caiu bruscamente no ultimo dia. Uma estrada com curvas fantásticas (finalmente curvas...) desemboca no canal de Beagle e na cidade mais austral do planeta. O Parque não tem descrição possível, não existem adjectivos para tamanha grandiosidade, natureza pura! Lagos multicoloridos, picos neva dos, castores, veados, falcões, florestas jurássicos…. o fim do mundo é lindo!
MarÇo, 2006
A Cordilheira dos Andes
Depois de um dia e meio desfrutando a cidade mais austral
do planeta voltamos ao caminho. Fizemos uns 450kms por
pistas de ripio sempre com o Estreito de Magalhães à vista
a uns deliciosos 120 quilómetros hora, a pista é maravilhosa
e a cada curva oferece-nos uma nova paisagem deslumbrante.
Chegamos a Provenir com o pôr do sol, e que pôr do sol!!!
O céu forrado de cores quentes espelhava nas aguas do estreito,
a separar estes dois elementos a linha do horizonte recortada
por picos glaciares tornava este momento perfeito! Provenir
é uma pequena aldeia de pescadores que tem um ferry diário
para Punta Arenas no Chile. O problema é que o horário
não e de fiar
e só quando chegámos à aldeia conseguimos
confirmar que a partida seria apenas às 7 da noite do dia
seguinte. Optamos por seguir viagem por mais 200km de ripio
e mais pistas maravilhosas sempre na companhia do “nosso”
estreito, acabando por contornar toda Tierra do Fogo Chilena.
Atravessamos na Bahia Azul e comprei mais uns presentes
para os amigos, que é como quem diz, juntei algumas pedras
do Estreito de Magalhães as que já tinha recolhido numa
praia do fim do mundo. O objectivo agora era chegar rapidamente
a El Calafate e começar a explorar a Cordilheira
do Andes, mas como Rio Gallegos é a maior cidade da região
achámos que uma noite aqui para reparar alguns pequenos
problemas nas motos seria boa ideia. Melhor ideia foi mesmo
a escolha do restaurante, já somos fãs do “Bife Chorisso”
(uma espécie de posta mirandesa mas com o dobro do tamanho)
mas desde que descobrimos o Pisco Chileno todas as noites
terminam em festa, afinal precisamos ganhar energia para
subir os Andes.
A visão que se tem da chegada a cordilheira é sem duvida uma experiência marcante
que nos vai acompanhar o resto da vida! Depois de dias e dias de pampa e planície
infinita (apenas quebrada pelos picos de Ushuaia) chegamos à cordilheira. Como
chegamos cedo a El Calafate, optamos por ir directo para o Parque Nacional dos
Glaciares e ver o famoso Perito Moreno.
O Glaciar Perito Moreno é o único no planeta que continua a crescer apesar do
aquecimento global. Um rio de gelo milenar nasce nos campos de gelo no topo dos
Andes e desce dois metros por dia na direcção do lago Argentino. Com uma altura
de mais 170 metros e uma largura de 5 quilómetros ele afunda no lago e estala
constantemente, desprendendo grandes Icebergues em explosões espectaculares.
não é mas devia ser uma das 7 maravilhas do mundo. Gigantesco e belo é outras
das visões inesquecíveis que vamos levar deste lugar.
Caminhamos demoradamente pela encosta oposta ao Glaciar e terminamos a tarde
num café perto do lago a degustar a cachaça oferecida pela Milene com gelo milenar...
só faltou o limão e açucar para a caipirinha. O ripio pelas margens do lago trouxeram-nos
de volta a El Calafate, onde terminamos o dia com uma tábua de queijos e um bom
vinho.
O próximo destino chama-se El Chaltén, uma pequena aldeia na base da montanha
com o mesmo nome. Para lá chegar percorremos 400kms de ripio pela Ruta 40. Famosa
pela sua extensão e isolamento, são mais de 4000 quilómetros de pista em cascalho
grosso sempre com a amplitude da patagónia de um lado e a cordilheira dos Andes
do outro. Os Glaciares alimentam os lagos que por sua vez escoam por rios poderosos
de um azul inacreditável. Esta cor é provocada pela agua glaciar do grande campo
de gelo da Patagónia no topo da cordilheira dos Andes, a 3ª maior reserva de
agua doce do planeta. Durante muitos quilómetros a Ruta 40 acompanha um destes
rios que desce da cordilheira na direcção da planície infinita da Patagónia Argentina.
Cerro Chaltén significa na língua indígena Tehuelche “montanha que fuma”
devido ao facto de frequentemente o topo desta montanha estar coberta por nuvens.
Era uma montanha adorada e considerada sagrada. Mais tarde foi baptizada pelos
colonizadores europeus como Fitz Roy em homenagem ao capitão do navio Beagle.
Simplificando a coisa é um calhau de granito com 3800 metros de altitude em forma
de agulha com neve no topo, rodeado por outros calhaus com a mesma forma....
isto tudo espalhado por alguns milhares de km quadrados com mais um rio azul
turquesa a correr pelo vale anexo e com umas florestas jurássicas para colorir
ainda mais a coisa... básico!!
Não satisfeitos com esta visão ainda percorremos mais uns 120kms até ao Lago
Del Desierto acompanhando o tal rio turquesa até à sua nascente. Dormimos acampados
mesmo na base do Fitz Roy e no dia seguinte regressamos demoradamente a El Calafate.
Recebemos a noticia de que o Barco de P. Natales foi alterado para o dia seguinte,
com isso ganhamos um dia aqui mas perdemos um no Chile, vamos ter de compensar
isso mas para já estamos com tempo e dentro do previsto. É bom ter tempo!!! As
etapas agora são pequenas e de ripio, para alem disso as paisagens cada dia são
mais arrebatadoras por isso e um prazer degustar estas paragens com tempo.
Montámos
as tendas nas margens do lago Roca a 30 kms da cidade e no meio de uma floresta.
O dia seguinte é de descanso, vou passar por um cybercafé, lavar a roupa e vadiar
pelas redondezas. Os Andrés, a Verbena o Raul e o
Rolf vão passear de barco e
ver os glaciares, eu acabei por encontrar o Teles numa pista que subia uma montanha
adjacente ao Lago. Resolvemos explorar e subimos, subimos continuámos a subir
até perceber que o caminho era afinal uma pista de ski em construção onde um
restaurante parecia estar ali só à nossa espera. Uma galinha caseira acabadinha
de sair do forno, um excelente vinho Argentino, uma lareira a estalar e 180 graus
de panorâmica para o Lago Argentino foram mais que suficientes para dar por terminado
o dia.
MarÇo, 2006
O Chile
Ai..... é a palavra mais escutada hoje, ontem uma caminhada
de 8 horas no coração do Parque Nacional Torres del Paine
deixou todos muito doloridos. Passamos lá duas noites
depois de termos decidido ficar em Puerto Natales na
primeira noite que chegamos deste lado da Cordilheira,
já no Chile. O Parque é fantástico e a cada curva, a
cada morro tem uma nova paisagem para fotografar, lagos
verde jade, montanhas de pedra nua, cumes neva dos, cascatas
poderosas, glaciares perdidos, enfim… foram 300 fotografias
em 160 kms de ripio feito nas calmas! Dormimos no acampamento
Las Torres, o mais próximo das enormes formações rochosas
que dão nome ao Parque, mesmo assim foi necessária a
tal caminhada de 8 horas sempre a subir para chegar à
base dos calhaus, foi duro
mas é mais um daqueles momentos
que vamos recordar para sempre, valeu muito a pena. A
manha acordou fresquinha, nuvens altas, ripio molhado,
Torres del Paine ao fundo, 110kms hora... temos 1 hora
para comer algo antes de embarcar as motos no navio da
Navimag rumo a Norte, rumo a Puerto Mount!!
Dizem que esta é a segunda viagem de barco mais bela do mundo, parece que a primeira
é na Nova Zelândia, um destes dias temos de verificar. Não tivemos muita sorte
com o tempo mas acabámos por ter sorte noutras coisas, eu e o Teles partilhámos
a cabine com duas backpakers, uma francesa e uma canadiana que traziam uma mochila
cheia de vinho chileno. Eu no segundo dia recebi a alcunha de “laundry man”,
descobri uma maquina de lavar numa salinha ao lado da cabine e aproveitei os
dias da navegação para lavar toda a roupa da viagem.
A rota do navio cruza fiordes
selvagens, locais intocados onde a civilização ainda não chegou, passamos por
Glaciares, por passagens estreitas onde o navio quase roça as margens, somos
acompanhados por focas e golfinhos mas o tempo continua fechado. O Teles viu
uma baleia e montou guarda para ver se vê mais, o Rui já conhece metade das backpackers,
o resto da comitiva entregou-se ao Pisco chileno e passa a vida a festejar, eu
entre uma maquina de roupa e outra aproveito para ler mais um pouco sobre o Atacama
enquanto ajudo a Michelle a aliviar excesso de peso na sua mochila/garrafeira.
O ambiente no navio é muito engraçado, há de tudo, famílias de férias, camionistas,
locais, motociclistas mas a grande maioria são backpackers de todas as origens
imaginárias.
A Piu é uma israelita muito simpática que viaja sozinha pela América
Latina, passámos várias horas à conversa, trocámos dicas e combinámos um reencontro
nas cataratas do Iguaçu onde a nossa rota se deve voltar a cruzar mais ou menos
na mesma altura.
Finalmente atracámos em Puerto Mount, tenho que confessar que já estávamos todos
com saudades das motos, especialmente depois da ultima noite quando o navio teve
de sair das aguas calmas dos fiordes e entrar em mar aberto. Nestas latitudes
o Pacifico não é assim tão pacifico, na ultima noite
mais de metade dos passageiros
chamou um tal de Gregório.
Saímos do navio directamente para a estrada Pan-americana com uma chuvinha chata.
Poucos quilómetros depois essa chuvinha chata transformou-se em temporal e chegou
a altura de inaugurar os impermeáveis que como é normal nestas circunstancias
estão sempre no fundo das malas. Exactamente a 35 quilómetros de Puerto Mount
o sensor hall da minha GS não gostou da chuva forte e calou o motor... já no
ano passado tinha tido este problema na pista da praia na Mauritânia e por pouco
não entrei em pânico, desta vez já sei do que se trata. Monto a tenda, saco das
bolachas e do chá e preparo-me para esperar que o sensor seque. Os companheiros
de viagem foram regressando à minha procura, o Teles foi o primeiro a chegar
e ajudou-me a levar a moto para uma paragem de autocarro
onde desmontei a tampa
do motor para arejar o sensor. O Ralf para surpresa geral traz um sensor hall
novo de reserva, 30 minutos depois estamos de novo a rodar rumo a Ozorno. Esta
é a ultima noite do grupo todo, a comitiva brasileira regressa daqui directo
para São Paulo, nós os Portugas seguimos até ao deserto do Atacama e só depois
regressamos ao Brasil.
O Rolf, a Verbena, o Andre e o Raul vão fazer falta, com eles a animação é garantida
e viajar é ainda mais um experiência magnifica! Depois das despedidas devorámos
900kms de Pan-americana até perto de Santiago. Depois de varias tentativas sem
sucesso de contactar o Mário, um amigo Chileno, optamos por atravessar pela costa
evitando a confusão de Santiago. Acampamos nas margens de um lago entre Vina
del Mar e ValParaíso. Esta é a região de veraneio de eleição dos Chilenos, uma
espécie de Cote d’azur do Pacifico.
A cidade de ValParaíso é bonita e organizada
e contrasta as avenidas largas bordejadas de palmeiras com as
enormes favelas que cobrem todos os morros circundantes. Parámos para um refresco
numa das praias do centro e reparei nos sinais de transito que indicam corredores
de fuga em caso de Tsunami, estamos numa das margens do instável anel de fogo
do Pacifico e os sismos violentos são esperados a qualquer momento.
Visitámos demoradamente a casa de Pablo Neruda numa aldeia perto de ValParaiso
e voltamos à estrada pelas 3 da tarde, o objectivo era subir o mais possível
até anoitecer. Até às 7 da tarde não correu mal, mais 450 kms "comidos" mas
depois veio mais uma avaria na Cagiva.
Alzira é o nome da Cagiva Elephant 900 do nosso amigo Túlio. No sorteio da distribuição
das motos ela calhou ao Rui que rapidamente se apaixonou pelas curvas e cores
da bonita Alzira. O problema é que como toda a mulher bonita a Alzira é muito
manienta e adora chamar a atenção. Durante toda a viagem ela praticamente dia
sim dia não pedia um carinho. Começou pelo botão de ignição colado, depois o
motor de arranque gripou, mais tarde a embraiagem deixou de funcionar, ficou
sem luzes algumas vezes, estoirou alguns retentores, os manómetros já deixaram
de funcionar à algum tempo e agora no auge da sua TPM (tensão pré menstrual)
ela resolveu cuspir a corrente no meio da estrada Pan-americana. Estamos no meio
do nada, faltam 90 kms para a cidade mais próxima e nenhum dos elos de ligação
que trazemos servem naquela corrente, nem mesmo um original Cagiva que o Rui
trouxe de Portugal!
Reboque (ler GS) a funcionar até um restaurante a pouco
mais de 8 kms. Quando nos preparávamos para acampar atrás de umas casas eis que
surge esbelto um camião com uma pick-up em cima, os nosso olhos cintilaram com
tamanha solução. Pensado, dito e feito, meia hora e 20.000 pesos depois (40USD)
estamos todos a caminho de La Serena! O Rui vai com o camionista e a Alzira vai
à conversa com a pickup.
La Serena é uma cidade muito agradável, limpa e com algumas construções históricas,
passámos a manhã numa oficina tentado adaptar um corrente Honda na Cagiva. Resultou
e depois de umas “empanadas” para acalmar o estômago continuámos viagem para
Norte.
MarÇo, 2006
O Deserto do Atacama
Pouco depois de La Serena a paisagem muda gradualmente
e começamos a subir em altitude. As vinhas e pomares
tão abundantes no sul dão lugar a zonas cada vez mais
áridas e ventosas. Em apenas algumas centenas de quilómetros
entrámos no coração do Atacama, a vegetação desapareceu
completamente e a paisagem agora é de montanhas nuas
com inúmeros tons de castanho e vermelho.Voltámos
a descer ao nível do mar e subimos pela costa até Chañaral,
uma cidade mineira com aspecto deserto. Segundo apurámos
no restaurante onde jantámos toda a cidade foi evacuada
pelo governo devido à contaminação do ar e das aguas
por arsénico usado nas minas de cobre, restam poucos
habitantes que se recusaram a abandonar a cidade.
Nós
que já nos preparávamos para um peixinho frito depressa
perdemos o apetite e resolvemos alterar o pedido para
uns “bife chorisso” de vacas da Patagónia. Ficámos
todos no mesmo quarto na única hosteria aberta que
também funciona como sala de jogos e cybercafé, a casa
de banho fica no andar de cima e é única para toda
a hosteria, o salão de jogos de noite é transformado
em garagem.
Na saída da cidade começa o Parque Nacional do Pão de Açúcar, o interesse deste
parque era duvidoso, mas tínhamos a informação que atravessando o parque pouparíamos
quase uma centena de quilómetros em relação a continuar na estrada Pan-americana.
A decisão foi rápida, já estamos fartos de asfalto e sempre conhecemos mais um
Parque Natural.
Acabámos por ter sorte porque mesmo com o arsénico, a fauna e
as paisagens do parque são muito interessantes, o nome Pão de Açúcar vem de uma
ilha numa das baías do parque que tem a forma desse tipo de pão. Já de volta
à Pan-americana hesitamos em meter-nos em mais 350km de ripio para ir a um observatório
celestial que tem o maior espelho do mundo (14m de diâmetro), o guia falava que
apenas eram permitidas visitas em dois dias da semana e por azar nenhum deles
coincidia com o dia em que estávamos, para grande magoa do Rui perdemos o observatório.
O problema da gasolina também não facilita. as bombas são às vezes a 200km umas
das outras e não dá para inventar à ultima hora. Já anteontem tivemos que fazer
uma trasfega para conseguir que o Teles chegasse à bomba.
As variações térmicas aqui são brutais e assim que o sol começa a desaparecer
a maresia e o vento gelado são implacáveis. Por vezes dá preguiça de parar só
para vestir o forro, cerramos os dentes, encolhemos o pescoço, fechamos o casaco
e esperamos que apareça um local bonito para tirar uma fotografia, esvaziar a
bexiga, fumar um cigarro e vestir finalmente o forro. Eu segui este ritual nos
últimos dois dias e como resultado tenho agora uma pequena gripe.
Passamos ao lado de Antofagasta, é de longe o sitio mais feio que vimos até agora,
a cidade está coberta por uma nuvem de pó permanente, o cheiro a químicos é muito
forte e as margens das estradas estão forradas de detritos das minas. O único
ponto interessante da região é a Mano del Desierto poucos quilómetros antes de
Antofagasta, uma escultura gigante de uma mão que imerge da planície desértica.
Finalmente viramos para Leste e poucos quilómetros depois cruzamos o trópico
de Capricórnio, registámos o momento histórico e contribuímos para o monte de
pedras que marca este ponto. Já no ano passado fizemos este ritual no trópico
de câncer no Sahara e esperamos no ano que vem fazer o mesmo quando cruzarmos
o equador. Seguimos directos a Calama, cidade onde queríamos ir ver a maior mina
a céu aberto do mundo, mas parece que para isso teremos que ir de excursão em
autocarro uma manhã inteira e isso já é turismo a mais para nós. Queremos fazer
o roteiro do deserto do Atacama sem repetir pistas por isso escolhemos ir directo
de Calama para o campo de Géisers perto da fronteira com a Bolívia, li no guia
que por este caminho há varias aldeias muito interessantes que permanecem inalteradas
desde que este território pertencia à Bolívia.
Entretanto faltavam 40 minutos para o sol desaparecer e metermo-nos num caminho
de alta montanha (o Géiser está a 4300m de altitude), sem saber o estado da estrada,
nem a distancia certa, de noite, não parece boa ideia. Mas, acabamos por comprar
comida e metermo-nos a caminho. Conseguimos chegar, noite já avançada, à pequena
povoação de Caspañas a 41 ou 65 km do Géiser, segundo as varias informações disponíveis.
Arranjamos dormida numa pequena casa construída de barro e madeira de cacto,
fazemos um piquenique com o que levávamos e cama. A minha gripe piorou consideravelmente,
a cabeça parece que quer explodir, não tenho apetite e não consigo adormecer,
subir do nível do mar até aos 3300 metros de altitude em poucas horas também
não deve ter ajudado.
Às 5h da manha levantamo-nos a muito custo para ir para o campo de Géisers El
Tatio. Era noite escura, não sabíamos como se portariam as motas em altitude,
a do Teles e a Alzira não parecem lá muito bem, mas lá vamos. Começamos a subir
dos 3300 metros a que fica a tal aldeia e tudo corre bem. Ainda de noite temos
que fazer um corta-mato, devemos ter descoberto o pior caminho possível para
o El Tatio, não existem indicações, a pista desapareceu, está um frio cortante
e apenas temos um waypoint aproximado da localização dos Géisers.Finalmente
chegamos e somos os primeiros. Aliás, se algum vez
fizerem isto não acreditem na conversa dos guias que
dizem que tem que lá estar ao alvorecer do dia. Eram
quase 10 da manhã, já o sol ia alto e o espectáculo
dos Géiser continuava praticamente igual. Dali vamos
para São Pedro de Atacama, são mais de 200 quilómetros
por uma descida com paisagens deslumbrantes. Mesmo
com a persistente dor de cabeça não posso deixar de
reconhecer que o Atacama me surpreendeu, depois de
conhecer algumas paisagens do Sahara pensei que o Atacama
fosse um deserto mais “modesto”.
As paisagens são absolutamente deslumbrantes. As cores
da terra e das rochas, as formas do relevo as cambiantes
que a luz cria, são um espectáculo lindíssimo. Na descida
do Géiser para S. Pedro de Atacama demoramos umas 4
horas por causa das paragens para tirar fotografias
aos picos da cordilheira, às rochas, aos desfiladeiros,
aos montes, às alpacas, aos oásis… A região é característica
pelos seus vulcões e géisers e as águas ricas em minerais
dão um colorido magnifico aos poucos rios da região.
De madrugada, lá em cima, o frio era terrível, à medida
que descemos, o calor começa a apertar e temos que
nos ir despindo até chegar a S. Pedro onde devem estar
uns 40 graus. Mas ao menos podemos respirar. A 4300
metros, qualquer esforço um pouco maior deixa-nos a
arfar e meio tontos, principalmente os que têm gripe.
São Pedro de Atacama é uma pequena vila perdida no
meio do deserto, tornou-se nos anos 80 um paraíso hippie
e hoje mantêm ainda um pouco dessa energia.
Ruas estreitas
de terra vermelha e casinhas baixas de barro desembocam na praça
principal onde a modesta Igreja secular se destaca como ex-libris desta
cidade saída de um filme de índios e cowboys. Também se tornou num destino turístico
muito procurado por servir de base à exploração das várias atracções do deserto
do Atacama, as hosterias são caras e encaixotam diariamente turistas em pequenos
autocarros que percorrem o Salar, o Vale da Lua, os Géisers, os vulcões e as
lagoas coloridas repletas de flamingos. A minha dor de cabeça não me dá descanso,
engulo mais umas aspirinas e tento dormir uma “siesta” enquanto os meus companheiros
de viagem exploram a cidade.
Antes de sair de São Pedro de Atacama para a Argentina
é necessário passar pela aduana para registar a nossa
saída e carimbar os passaportes, a fronteira efectivamente
fica ainda a 200 kms mas a 4600 metros de altitude
por isso as aduanas ficam nas cidades mais próximas
da fronteira a uns mais respiráveis 3000 metros de
altitude.
Fronteira despachada saímos ao meio dia de São Pedro
de Atacama depois uma visita ao Vale da Lua, um local
impressionante que realmente parece de outro mundo.
O que torna este vale especial é que em toda a sua
extensão brota gema de sal do chão forrando tudo de
branco, as formações gigantes
de corais fossilizados
dão ainda mais dramatismo ao cenário e as enormes dunas
de areia vermelha transportam-nos realmente para outro
planeta. A Alzira acordou novamente mal disposta e
ficou tão impressionada com o vale da Lua que resolveu
aliviar o peso do seu disco de travão traseiro. Assunto resolvido (disco na mala) e segue viagem que
temos uma cordilheira para atravessar! Foi viagem de pouca dura, poucos quilómetros
e pouca altitude depois (3200mt) a Alzira volta a pedir a nossa atenção. Desta
vez não passa dos 60 e está com gazes estranhos, metade das entranhas da Alzira
já estão nas malas por
isso rapidamente chegamos à conclusão que devem ser a
velas sujas... mais um assunto resolvido! Segue! E seguimos... pelo ponto mais
alto da viagem, tecnicamente falando claro, exactamente 4868 metros registados
no GPS!!
Passamos por vários salares coloridos e por uma tabuleta
que anuncia a Bolivia a apenas 500 metros. O Vulcão
Lincancabur com os seus 6200 metros de altitude, um
perfeito cone com neve no topo, marca a fronteira entre
o Chile e a Bolívia.
Passamos por vários vulcões e
lagoas coloridas e finalmente chegamos ao passo da
Cordilheira para a Argentina. O passo de Jama é só
isso mesmo um passo, uma tabuleta que diz que o Chile
termina e a Argentina começa ali! A Argentina construiu
recentemente uma aduana a poucos quilómetros do passo
de Jama. As fronteiras até agora tem sido muito tranquilas
e fáceis de ultrapassar, mas desta
vez encalhamos com
um daqueles guardas super meticulosos que insiste em
não nos passar o papel da importação temporária das
motos. Segundo a sua argumentação as motos sendo de
matricula brasileira não necessitam de importação temporária
pois existe um acordo de livre circulação entre o Brasil
e a Argentina. Nós em Buenos Aires recebemos uma ensaboadela
da chefe da Alfandega para exigirmos sempre esse documento
pois poderíamos ser impossibilitados de sair do pais
sem ele. Cumprimos essas recomendações em todas as
fronteiras mas este guarda recusava-se terminantemente
a passar tal documento. Tentámos de tudo, pedir educadamente,
explicar que poderíamos ter problemas em Iguaçu e que
mesmo não sendo obrigatório seria para nós muito mais
tranquilo levar a importação temporária. Nada! Às tantas
o clima azedou e pedimos para falar com o chefe da
aduana. Ele ironicamente respondeu que o chefe estava
a 300 kms de distancia.
Pedimos então para ele se identificar
e passar um documento explicando porque razão não passava
a importação temporária. Ele ficou furioso, disse que
se identificaria e iria tirar fotocópias da lei de
importação mas que iria investigar minuciosamente as
nossas motos e que se encontra-se algo irregular teríamos
de voltar São Pedro e entrar na Argentina por outra
fronteira. Esta volta iria comprometer totalmente o
nosso calendário e implicaria mais 1500 kms de estrada
a mais de 4000 metros de altitude, engolimos em seco
e aguardámos a inspecção. Duas horas de volta dos nossos
documentos e das motos até ele renitentemente nos dar
ordem de avançar. Ufa!
Depois do passo de Jama estávamos na esperança de começar
a descer mas nada disso, rodamos 150kms a 4000 metros
e depois mais 150km a 3500mts.... A minha
cabeça só não explodiu porque tinha o capacete, mas a ajuda na bomba de gasolina
de Susques veio a calhar. Um chá de coca e umas folhas da mesma planta medicinal
para mascar aliviaram bastante a dor e a descida foi bem mais tranquila e agradável.
Com os reparos da Alzira e a confusão na fronteira perdemos algum tempo e o sol
resolve ir embora no ultimo salar, a verdadeira descida começa já com a noite
escura. Os conhecidos "caracoles" em pouco mais de 100 kms levam-nos
dos 3500 metros até aos 1500 metros isto claro contanto com as curvas, sim porque
em linha recta pelo gps fizemos uns 30kms no máximo! Impressionante! Eu ia a
descer todo satisfeito mascando a minha coca já sem dor de cabeça quando passa
por mim o Rui que mesmo só com travões na frente ( o disco de trás ia na mala)
foi a “raspar” todas as curvas, aliás a Alzira vai ficar na historia por ter
sido sem duvida a única Cagiva a atravessar a Cordilheira dos Andes só com travões
na frente. Chegamos finalmente a Jujuy, a primeira cidade do “Chaco” Argentino,
abastecemos as motos e resolvemos dormir por ali mesmo.
MarÇo, 2006
De volta à Argentina
O "Chaco" é chato! Ou nem por isso, nós
é que estamos mal habituados.
Saímos
de Jujuy relativamente cedo, esperava-nos "El
Chaco" uma região plana com temperaturas muito
elevadas e uma recta de 800kms! Depois de ler o relato
do Rodrigo Moraes, um amigo brasileiro, estávamos
preparados. Muita agua, gasolina de reserva e roupas
preparadas e seguimos, seguimos e seguimos até o
Teles furar. Por sorte foi logo depois do almoço
e tínhamos a bomba de gasolina com um compressor
de ar ali ao lado e tudo, sorte de Inshalá! Uma hora
depois seguimos de novo pela paisagem igual e monótona
apenas colorida pelas nuvem de borboletas que teimavam
em vir contra as motos. Estava eu a pensar nas semelhanças
desta paisagem com a savana africana e eis que surge
outro ponto de interesse; A estrada de repente fica
tão esburacada que tem de se andar pelas bermas...
parece que estamos de volta à Guiné onde 95% das "estradas" são
assim, o asfalto serve de separador central e a verdadeira
estrada é nas bermas.
A noite caiu novamente e ainda estamos a 180kms de Corrientes onde tínhamos planeado
dormir, resolvemos dormir aqui mesmo e não arriscar seguir de noite, existem
muitos animais e pessoas nas bermas e os camionistas são meio loucos por isso
mais vale prevenir. Ficamos em P.R Saénz Pena uma cidade pequenina mas muito
movimentada onde já se nota o inicio da floresta tropical que nos espera assim
que chegarmos às imediações do rio Paraguay.
Novo dia e nova incontinência da Alzira, desta vez um dos tubos de gasolina rompeu
com o calor, apesar de ser uma regra de ouro nas viagens de moto parece que é
nossa sina terminar o dia de viagem dirigindo de noite.... chegamos a Puerto
Iguaçu era já noite escura. Passámos directo por Mendoza e Corrientes e desde
então temos vindo a acompanhar o rio Paraguay.
As cataratas da Foz do Iguaçu são avassaladoras. A
cascata conhecida como “A garganta do diabo” é especialmente
impressionante, uma enorme depressão na rocha forma
uma garganta imensa onde o rio se precipita por todos
os lados. Não existem adjectivos para descrever tamanha
beleza, é simplesmente uma das maravilhas do mundo.
Ao contrário do que imaginávamos 80% das cataratas
ficam do lado Argentino, existem passadiços de madeira
que percorrem a floresta
tropical que envolve as
cataratas e que permitem visitar grande parte do
Parque Natural de Iguaçu. O lado Brasileiro tem apenas
uma das margens mas orgulha-se de ter a melhor panorâmica
geral das cataratas. Optámos por ficar no lado Argentino, viajamos num comboio
que nos deixou no meio da selva, caminhamos por cima das cataratas, descemos
parte do rio num bote de rafting, subimos num Unimog..... tudo isso colorido
por milhares de borboletas, jacarés, macacos, tucanos, tartarugas e um sem numero
de aves exóticas... que lugar magnifico!!
No dia seguinte passamos para o Brasil, seguimos a dica do Daniel e ficamos
na melhor pousada da juventude do Brasil, a pousada de Paudimar em Foz do Iguaçu.
A pousada está cheia de backpackers de todas as origens que se distribuem pelo
jardim, piscina e bar.
O ambiente é muito descontraído, o gerente também gosta
de motos e faz um desconto simpático alem de nos oferecer uma caipirinha.
O Rui
já conheceu umas backpakers francesas e está na conversa, o Teles está no bar,
o André escreve o seu diário e eu comemoro o regresso ao Brasil com um mergulho
na piscina. De tarde colocamos as motos numa oficina fazendo um pequena revisão,
enquanto isso tínhamos planeado visitar a maior barragem do mundo e dar um passeio
por Cidade Del Este no Paraguai. Nem uma coisa nem outra, o Paraguai fechou a
fronteira como forma de protesto em relação ao reforço no controle da policia
brasileira ao contrabando oriundo daquela cidade, só paraguaio entra e saí, todos
os outros não podem sair nem entrar e isso durante 2 ou 3 dias até decidirem
abrir de novo a fronteira. Na semana passada alguns turistas ficaram retidos
no Paraguai 3 dias por isso resolvemos não arriscar. A Barragem só tem passeios
de autocarro, com guia e programinha de meio dia e isso não é para nós, segue
viagem.
MarÇo, 2006
O Rio de Janeiro continua lindo!
O caminho está bom e a estrada é devorada com
algum facilidade, o ponto mais alto do dia, ou
melhor da noite, foi a dormida. Ficámos num típico
Motel brasileiro de beira de estrada! Com direito
a cama redonda, espelho no tecto, som ambiente
e mais uma série de adereços interessantes. Não
sei o que aconteceu com o Rui e o André que ficaram
juntos num destes quartos, mas lá que acordaram
muito sorridentes...lá isso acordaram. Ontem
foi mais um dia a devorar estrada, a DR do Teles
tem uma pequena fuga de óleo no radiador e tivemos
de abrandar um pouco e tentar uma reparação com
epoxy. A fuga diminuiu mas mesmo assim continuou
a cair óleo nos pés do Teles, com isso
chegamos
a São Paulo eram umas 8 da noite. Fomos recebidos
pela família Ventura, a família Chapolin e a família
Etienne numa churrascaria daquelas de cair para
o lado de tanta comida, mas soube bem..... soube
muito bem!!
Ficamos na conversa contando as aventuras até tarde e depois atravessamos São
Paulo até a casa do Silvio onde dormimos essa noite. De manhã tentámos com a
ajuda de um mecânico amigo soldar o radiador de óleo do Teles mas sem grande
sucesso,
o Silvio ao ver a cara desanimada do Teles disponibilizou a sua Varadero
novinha para que todos podéssemos continuar viagem até ao Rio de Janeiro. O Chapolin
é outro dos grandes amigos que tenho no Brasil e vai acompanhar o resto da viagem
na sua DR.
Saímos já tarde da casa do Silvio, guiados pelo Chapolin seguimos pela Via Ayrton
Senna para evitar o transito pesado da conhecida via Dutra. Chegámos à Serra
das Araras já com o pôr do Sol e atravessámos o centro do Rio já com noite escura,
o objectivo é chegar rápido à Região dos Lagos por isso passamos directo para
a ponte na direcção de Niterói, vemos o Rio na volta. Nos preparativos para a
viagem acabei por me esquecer de trazer a chave da casa de Arraial, problema
prontamente resolvido pelo Chapolin com um telefonema para o Alessandro Meau.
Alô Alessandro, dá para ficar na sua casa de Cabo Frio esta noite??? Claro, ligo
já para o caseiro e ele dá as chaves para vocês..”
O Brasil é assim, mais do que paisagens magnificas, praias soberbas e calor tropical
são as pessoas que tornam este país inesquecível. A amizade aqui é servida em
quantidade industrial. Conheci o Alessandro e a Gabi na ultima vez que estive
por cá, juntos com a Verbena, o André, a Milene, o Silvio e o Chapolin percorremos
todas as prainhas de Arraial, Cabo Frio e Búzios. Foi cumplicidade à primeira
vista e desde então defino este grupinho como a minha família brasileira.
Antes mesmo de descarregar bagagem fomos direito a um restaurante japonês
velho conhecido, estamos no ponto mais a norte desta viagem e importa comemorar.
O Teles a principio ainda tem alguma reserva acerca das iguarias japonesas mas
não demorou muito a ficar fã do Sushi e do Saké. Comemorar é agora a palavra
de ordem, estamos no final da viagem e importa afugentar a tristeza que acompanha
todos os finais de viagem. Afogámos essa tristeza com uns mergulhos nas aguas
da Prainha de Arraial, a lua foi a nossa única espectadora na noite que marca
o principio do fim da viagem. Tinha reservado o dia seguinte para resolver alguns
assuntos pessoais mas ainda deu tempo para ficar um pouco na praia dando uns
mergulhos enquanto esperávamos pelo camarão frito ou pelo peixinho acabadinho
de pescar, pela cerveja gelada não era preciso esperar, uma geleira cheia debaixo
da mesa garantia a hidratação necessária neste calor.
Fomos ver o pôr do Sol ao Pontal, a ponta da península de Arraial do Cabo onde
enquanto o sol se põe no mar a Oeste, a lua nasce no mar a Este, um espectáculo
maravilhoso!
À noite fomos passear por Cabo Frio e resolvemos jantar uma bela picanha no restaurante
do Zé. A picanha estava uma delicia e o Rui descobriu outra iguaria, o palmito!!
Devorou duas saladas sozinho, está a redimir-se dos pecados mortais que cometeu
durante toda a viagem, ele é o vegetariano mais apreciador de churrasco que eu
conheço.
Tínhamos previsto sair de Cabo Frio cedinho, almoçar no Rio, ver as vistas e
seguir para Paraty passando por Angra dos Reis. O problema é que no dia anterior
antes do jantar eu esqueci o capacete numa
loja e só dei conta do esquecimento
quando precisei dele para regressar a casa já depois da meia noite! Obviamente
a loja já estava fechada e estivemos de esperar hoje pelas 11 horas para recuperar
o capacete. Com este esquecimento comprometi a partida cedo para o Rio, já que
não temos de acordar cedo decidimos partir para a "balada" e aproveitar
a noite. Começamos na Rua do Canal e ao ritmo que os lugares iam fechando nós
íamos mudando de esplanada, conhecemos gente simpática, fizemos mais amigos e
foi assim toda a noite até sermos presenteados com um nascer do Sol magnifico,
desfrutado condignamente “verdascando” pelas dunas brancas de Cabo Frio.

Chegámos já de tarde ao Rio, passámos o centro, Botafogo, o Pão de Açúcar, Copacabana
e instalamos acampamento em Ipanema. Um cocos gelados num quiosque bem
no calçadão e está cumprido o ultimo objectivo da viagem! Desfrutámos o momento,
apreciamos as vistas e descansámos enquanto esperávamos o contacto do Alessandro.
Ficámos de novo na casa do dele e da Gabi, a diferença agora é que não estamos
na casa de férias, estamos mesmo na casa deles no Rio. Fica entre a Barra e o
Recreio do Bandeirantes e dá dó ver a vista terrível que eles tem deste 22º andar,
Mar, mar e mais mar.
Agora estamos a jantar com o eles e com a Pyowany na Barra,
fomos recebidos mais uma vez de uma forma soberba, acho que por mais que eu receba
amigos em Lisboa, nunca vou conseguir retribuir esta hospitalidade. Visitar a
cidade maravilhosa
é sempre uma experiência agradável, mesmo com as noticias
recentes da "guerra" exercito/traficantes esta cidade será sempre um
dos lugares mais bonitos do mundo. Estávamos a jantar e no Telejornal só falavam
da quantidade de militares nas ruas do Rio, à pouco passámos na entrada da Favela
da Rocinha e pudemos comprovar que os pára-quedistas não estão ali a brincar.
Vários carros de combate centenas de militares equipados até aos dentes e dois
helicópteros Puma a sobrevoar a área.... parece uma zona de guerra, mas é só
virar a esquina passar um túnel e de novo uma praia numa baia magnifica nos leva
para outro mundo, o Rio é assim.
Ultimo dia no Brasil, não há como esconder a tristeza. Tem sido magnifico ter
a companhia do Chapolin nestes dias, a nossa cumplicidade já era de esperar,
mas o surpreendente
foi a sua integração com o resto do grupo, ao fim de umas
horas parecia que viajávamos juntos à meses. No regresso a São Paulo fomos mandados
parar por um posto de policia, a culpa foi minha que nessa altura seguia na frente.
O posto era no final de uma curva e os sinais que avisavam dos limites de velocidade
foram tapados por camiões que circulavam devagar na faixa da direita, resultado;
passamos a 30 centímetros dos policias a 130kmh... Tudo indicava que iríamos
ser multados, mas muita conversa, futebol, motos e depois de se certificarem
que não existiam argentinos no grupo os policias mandaram-nos seguir.
Já perto
de São Paulo a Varadero do Teles deitou fora um pedaço do pneu traseiro, a tela
ficou exposta e não inspirava muita confiança por isso optámos por rodar bem
devagar até chegar. A Verbena esperava por nós e nos guiou de volta a sua casa
onde o André nos recebeu, o circulo fechou, estamos de volta ao ponto de partida!
O Rolf chegou entretanto mas tem compromissos e não pode ficar connosco. Nós
também não estamos com muito tempo, um banho rápido e de volta ao centro de São
Paulo para a festa no Desmobuteco. Padu e companhia esperavam por nós para a
festa de despedida,
desta vez não há banda mas há churrasquinho e muita caipirinha.
O André Verbeno preparou um CD com algumas fotos, o Chapolin também trouxe as
suas fotos e na companhia de vários amigos membros da Big Trail e do Desmogrupo
vemos pela primeira vez as imagens da viagem.
A Verbena e a Cris aproveitaram
o momento para organizar uma "balada" e sem ninguém perceber muito
bem como, estamos a caminho da inauguração de um bar num bairro da moda de São
Paulo. Somos mais uma vez bem recebidos (isto parece cliché mas é a pura realidade)
temos uma mesa para todos e mais caipirinha, mais festa para esquecer que amanhã
estamos de volta à vida real.
Hoje acordamos com um sabor amargo na boca, deve ter a ver com a caipirinha de
ontem... ou com a proximidade do mundo real. O café da manhã é da responsabilidade
da mãe da Verbena, e que pequeno almoço.... refiro apenas dois detalhes para
não me alargar muito..... manteiga caseira e cuscuz feito na hora, uma delicia!
O resto da manhã foi gasto a desmontar as motos e a arrumar as malas. O almoço
foi no mesmo restaurante onde almoçamos no dia em que chegámos ao Brasil, exactamente
à 46 dias, e a (in)digestão foi feita no transito de São Paulo até ao Aeroporto
onde chegámos a 5 minutos de fechar o check in.
Quando o assistente da TAP viu as nossas malas ia tendo uma sincope, fartou-se
de reclamar, que tínhamos peso a mais e que eram muitos volumes, nós já calejados
do embarquem em Lisboa
sacámos das cintas e dos elásticos das motos e amarrámos
as malas de duas em duas. “Pronto, agora só temos dois volumes por passageiro!”
O homem ficou furioso, esbracejava e resmungava que se algo se perde-se eles
não seriam responsáveis, o nosso ar despreocupado deve ter resultado porque 11
horas depois nós e toda a bagagem desembarcámos em Lisboa são e salvos.
Esperavam por nós as respectivas famílias, o Carlos Martins o Amorim e o Casimiro.
Voltámos à vida real, ao frio, à chuva e amanhã já tenho de ir trabalhar…. faltam
15 meses e 29 dias para a próxima!
